ALERTA - Não há política pública para a questão ambiental
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domingo, 10 de janeiro de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Temporais, inundações, deslizamentos de terra. As catástrofes ambientais, que já atingiram diversos Estados, especialmente a Região Sudeste, estão trazendo consequências desastrosas. Somente em Angra dos Reis (RJ), mais de 50 pessoas morreram.
Governos e a sociedade estão em alerta. De acordo com especialistas, a saída para evitar mais tragédias relacionadas a fenômenos climáticos é investir no desenvolvimento de políticas públicas de prevenção, aprovar leis e modificar hábitos. Tudo com o objetivo de proteger as gerações futuras.
No final do ano passado, o governo federal sancionou a Lei de Mudanças Climáticas, que fixa a meta de redução de emissão de CO2 entre 36,1% a 38,9% até 2020. Ainda assim, um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indica que os efeitos do aquecimento global serão 20% maiores no Brasil em comparação com a média global. Além disso, a economia do País poderá perder até R$ 3,6 trilhões nos próximos 40 anos em decorrência das mudanças climáticas.
''A gente ainda pode chegar a um caos'', alerta o geógrafo Thiago Augusto Domingos, que é professor do curso de Gestão Ambiental da Universidade Norte do Paraná (Unopar). Nesta entrevista, ele explica por que o Brasil será mais afetado e avalia os resultados da Conferência do Clima realizada em Copenhague, na Dinamarca, em dezembro.
Por que o Brasil será mais afetado pelo aquecimento global do que os demais países?
Devido à economia do País, que é vinculada à agricultura. Como podemos ter alterações no nível de chuvas, a economia vai ser diretamente influenciada. Além disso, a matriz está baseada na hidroeletricidade e com as alterações no nível de chuva podemos ter uma diminuição dos reservatórios, o que vai reduzir a produção de energia, obrigando o Brasil a buscar outras fontes de produção.
Na questão dos biomas brasileiros podemos ter um cenário muito caótico. Próximo ao Equador temos a Floresta Amazônica e a Caatinga. Com o aumento da temperatura, a floresta pode passar por um processo de savanização, perdendo espécies de árvores. A Caatinga já está passando por uma desertificação. Por tudo isso, o Brasil fica mais vulnerável e será mais atingido.
É possível reverter a situação?
Nos próximos cem anos é impossível. A discussão em Copenhague foi para conseguir um (limite no) aumento de dois graus na temperatura do planeta até 2100. Estudos indicam que se a gente parar de emitir carbono artificialmente ainda ocorreria um aumento de um grau nos próximos 50 anos. Não tem como reverter a situação, mas há como atenuar.
Que atitudes as pessoas deveriam adotar no dia a dia para amenizar o problema?
Temos medidas que chegam perto do paliativo. Por exemplo, trocar o automóvel pela bicicleta, tentando evitar o aumento de emissão de gases. Essas atitudes são paliativas porque o problema é estrutural. Não basta simplesmente trocar o tipo de combustível ou não usar o automóvel. É preciso ir além, mudar de pensamento. As pessoas desenvolvem a ideia de desenvolvimento sustentável, mas eu não consigo enxergar um desenvolvimento sustentável na sociedade em que vivemos. Se, por um lado, discutimos o problema climático, quando ligamos a televisão somos induzidos o tempo todo ao consumo. E como desenvolver a sustentabilidade em uma sociedade estruturada dessa forma?
Há políticas públicas suficientes voltadas às questões ambientais?
Eu acho que não. Mas temos uma mudança de cenário. No protocolo de Kyoto o Brasil ficou de fora e não tinha obrigação nenhuma de participar por não ser um país rico. Agora o governo está começando a mostrar um certo interresse em reverter o problema. Acredito que reduzir o desmatamento seria a melhor alternativa para o Brasil.
As dificuldades para minimizar os efeitos do aquecimento global são uma questão de vontade política ou de dinheiro?
Vontade política. Dinheiro eu não acho que falta. Quando enfrentamos a crise nenhum governo poupou nada para salvar um banco ou uma indústria. Agora quando o problema é ambiental e vai afetar principalmente a população mais pobre a discussão é grande sobre quem vai financiar. A prioridade ainda é econômica. A gente pode chegar a um caos por causa disso.
Quais as principais consequências que as gerações futuras podem sofrer em razão do aquecimento global?
Vamos ter problema com a agricultura e até de fome por falta de área agricultável. Podemos ter ainda mais eventos como deslizamento de terra, que são cada vez mais comuns devido ao aumento de chuva. Também teremos mais episódios de inundação. As espécies da Amazônia vão mudar, pois terão que se adaptar aos períodos secos. Nas regiões Sul e Sudeste temos uma tendência de aumento de pluviosidade. Alguns locais vão ter consequências drásticas.
Qual será o impacto econômico?
É contraditório. As pessoas não querem gastar para resolver um problema que futuramente vai resultar em uma grande perda de dinheiro. As consequências na agricultura vão fazer com que o país perca muito.
E é possível conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental?
Precisamos considerar que o meio ambiente é necessário para o desenvolvimento da economia. Quando compramos uma caneta por R$ 1 não estamos pagando todo o dano ambiental que ela criou para ser construída. Eu acho que os consumidores deveriam pagar pelo impacto causado ao meio ambiente. A intenção não é reduzir o consumo, mas fazer com que as pessoas compreendam que os produtos têm um custo ambiental. É preciso mudar nossa mentalidade. Tem gente que acha que pode poluir porque faz a sua parte reciclando o lixo.
Qual a sua avaliação dos resultados da Conferência de Copenhague?
As pessoas queriam ver metas, mas não viram. De acordo com especialistas, para conseguir limitar o aumento da temperatura do planeta em dois graus até 2100 é preciso reduzir em 40% os níveis de emissão de carbono da década de 1990. As pessoas queriam saber quanto os países ricos pagariam para reverter o problema, mas não ficaram sabendo.


