Uma crise de hipertensão levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a afastar-se de suas atividades na semana passada. A doença que afeta o principal mandatário do País é muito comum entre os brasileiros: 17 milhões de pessoas acima de 40 anos convivem com a enfermidade. Perto de 35% da população adulta no Brasil são hipertensos. Os números são do Ministério da Sa© úde. Um estudo de uma revista britânica revela que em 2025 mais de 1,5 bilhão de pessoas serão afetados em todo o mundo.
O número de portadores de hipertensão não é o único problema. O fato de ser uma enfermidade assintomática dificulta a prevenção. ''Muita gente não sabe que tem hipertensão por se tratar de uma doença silenciosa. Na maioria das vezes o paciente não apresenta sintomas'', alerta o cardiologista Marcelo Calil de Paiva. Nesta entrevista, ele ressalta que outro risco importante são as possíveis consequências, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Quais são as principais causas da hipertensão?
A hipertensão é uma doença multifatorial que aparece, geralmente, a partir dos 30 anos. De cada 20 pacientes com hipertensão, apenas um tem uma causa detectada. Em 95% das situações não existe uma causa definida.
O problema pode ser hereditário?
Filhos de pais hipertensos têm grande chance de desenvolver a doença. O paciente típico é o que está entre 30 e 50 anos e que tem casos de hipertensão na família.
Quais são os sintomas da doença?
Na grande maioria das vezes o paciente não tem sintomas. É uma doença silenciosa. Se o paciente tem algum sintoma, geralmente é tontura, dor de cabeça, náusea, vômito.
A partir de que momento uma pessoa é considerada hipertensa?
Se um paciente em torno de 30 anos tem várias medidas seriadas de pressão fora do limite, ele pode ser considerado hipertenso. É considerada hipertensão a pressão acima de 140 por 90 mm/hg (unidade de medida de pressão). Quando a pressão está menor ou igual a 120 por 80 está ótima. Quando está até 130 por 85 é aceitável. Até 139 por 89 é uma zona limítrofe. 140 por 90 já é hipertensão. Definimos a hipertensão em estágios.
A hipertensão em pacientes que não apresentam problemas cardiovasculares traz um risco menor de complicação. Já em pacientes com diabetes, por exemplo, o risco de afetar os órgãos é muito maior. Mas a hipertensão, por si só, já pode acarretar outros danos.
Que danos são esses?
Infarto, AVC, doença renal. Cerca de 40% dos casos de AVC estão relacionados a hipertensão. Perto de 25% dos infartos e doenças cardiovasculares têm relação com a doença. Se a pressão não for controlada, leva à dilatação do coração, doença renal e até no olho. Mas se a doença estiver associada a outros fatores o risco aumenta muito. Quando a gente vai avaliar um paciente não podemos olhar somente a hipertensão. Temos que considerar todo o contexto.
Como prevenir a doença?
É importante passar por avaliações frequentes nos consultórios médicos. São avaliações de prevenção cardiovascular. Além disso, as pessoas devem se preocupar com seus hábitos. Os hábitos ajudam no tratamento e na prevenção da doença. As pessoas que têm casos de hipertensão na família devem se prevenir desde cedo com a prática regular de atividade física, restrição de alimentos ricos em gorduras saturadas e sal e evitar o abuso de álcool.
Hábitos saudáveis são a melhor forma de tratamento?
É importante verificar se o paciente está ou não necessitando de medicação. Quando o paciente não tem um nível de hipertensão muito alto e apresenta um baixo risco cardiovascular não há necessidade de medicá-lo. É preciso orientar a diminuição do peso. Com isso, é possível perder entre 5 e 20 mm/hg. Também é importante seguir uma dieta específica. Outro cuidado é diminuir o consumo do álcool. Restringir o consumo de sal também é muito importante. Recomenda-se ingerir no máximo 6 gramas de sal por dia. E, por fim, a pessoa tem que praticar atividade física no mínimo três vezes por semana por pelo menos 40 minutos, uma hora. Mas no mundo a cada dez hipertensos somente um trata o problema.
E por que eles não buscam tratamento?
Às vezes a pessoa nem sabe que é hipertensa, pois é um mal silencioso. Outras não tomam os remédios receitados pelo médico. Elas evitam os efeitos colaterais e não querem gastar dinheiro para tratar uma doença invisível. Essas pessoas vão pagar muito mais caro lá na frente. Os remédios mais modernos, de dose única, têm um alto custo, o que dificulta o acesso. O Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece essa medicação mais nova.

mockup