Na ciranda regida por resultados, produtividade e um nada permanente estado de bom humor, a imunidade vai ao chão e deflagra uma série de problemas. E quem nunca se sentiu assim? De vestibulandos a executivos, o estresse não faz escolhas nem distinção. Feito epidemia, o mal prejudica a saúde física e emocional e, muitas vezes, traz saldos irreversíveis.
Recente palestrante em evento realizado na UniFil, a farmacêutica bioquímica Gabriela Gonçalves de Oliveira faz um importante alerta: além de resfriados, alergias e dores de cabeça, o estresse crônico aumenta até a suscetibilidade ao câncer.
O estresse atinge 32% da população adulta do Brasil e as mulheres são as principais afetadas. A quais fatores atribui números tão altos?
As mulheres participam hoje de uma forma mais marcante de atividades que há alguns anos eram exclusividade masculina, como, por exemplo, a gerência de grandes indústrias. No entanto, as mulheres ainda não conseguiram um salário equivalente ao dos homens em vários segmentos. Além disso, há a busca por uma excelência profissional maior - isso igualmente nos dois sexos - do que há anos atrás. O perfil profissional está mudando, mas permanecem as tarefas diárias: preocupação com o lar, cuidado dos filhos e preocupação também com os mesmos em relação à educação, violência e drogas, independente da condição social. Inúmeras pesquisas apontam exatamente isso: o brasileiro preocupa-se principalmente com seu emprego e a violência. É importante lembrarmos que, atualmente, a proporção de lares providos exclusivamente pelas mulheres aumentou expressivamente, algo impensável décadas atrás.
As pessoas banalizam os riscos deste mal?
Se pensarmos em falta de medidas preventivas, é correto afirmar que sim. Se todos seguíssemos os conselhos básicos de qualquer especialista, como dormir mais, comer melhor, evitar o abuso de substâncias entorpecentes, realizar visitas periódicas a médicos, dentistas, com certeza evitaríamos muitas doenças. Tanto físicas como psíquicas.
Por que há 20 anos não se falava nisso?
Porque a velocidade de informações que vemos hoje, com o advento da web, por exemplo, não existia em tamanha proporção. Com a maior velocidade, aumenta-se a exigência por respostas também mais rápidas, e isto em todos os âmbitos: profissionais, escolares. Pelo lado positivo, observa-se também uma tendência a menor burocracia com a integração de diversos sistemas.
Qual o perfil mais vulnerável ao estresse?
Pessoas submetidas à violência física, incluindo abuso sexual; violência emocional: pressões psicológicas, ou falta de atenção à criança em quesitos básicos, pobreza e miséria (o que inclui um baixo nível de atendimento médico, alimentação inadequada); gravidez não desejada; habitantes de locais violentos (bairros, favelas, morros, pontos de tráfico) e também habitantes de grandes cidades (com dificuldade para se deslocar ao local de trabalho); desempregados, além de pacientes com suscetibilidade genética à depressão.
O que um quadro grave pode desencadear no organismo das pessoas?
Doenças, visto que o ser humano deve ser observado hoje à luz da Psiconeuroendocrinoimunologia, a ciência que estuda a interação de mente, sistema endócrino, e imunologia. É então provável que o estresse crônico deflagre doenças que são bastante variáveis, como resfriados, infecções bacterianas, alergias, dores de cabeça, doenças auto-imunes como problemas da tireóide, e até um dos piores medos do homem: o aumento da suscetibilidade ao advento do câncer.
O estresse é um assassino silencioso?
Não diria silencioso. Nosso corpo sempre demonstra alguns sinais de que algo não vai bem. Depende de nós estarmos atentos e tentar correr atrás do prejuízo.
Existe tratamento?
Sim. No entanto, alguns especialistas não falam em cura e sim em controle. Pois, infelizmente, trata-se, em casos mais graves, de doença crônica. Não estamos, obviamente, falando aqui do ''eutresse'', aquele estresse que faz parte da natureza humana e é importante para nos preparar diante dos problemas. Mas há inúmeros tratamentos disponíveis, que incluem desde a psicoterapia e medicamentos até a acupuntura. Cada caso deve ser avaliado com cautela.
Então é possível ''virar'' o jogo?
É possível, como em qualquer situação difícil. Nossa inteligência deve ser dirigida não somente para adquirir bens, mas também para reconhecer os problemas, pedir ajuda e ajudar-se da melhor forma e de acordo com a condição de cada um. Existem inúmeros tratamentos, incluindo grupos de pesquisa e extensão gratuitos ou com preços mais acessíveis. Um exemplo são as universidades de Londrina. A maioria conta com esses serviços. É preciso, então, informar-se sempre.

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