A violência e a indisciplina na escola são alguns dos maiores desafios para os educadores hoje no Brasil. Ameaças a professores, atos de vandalismo e até agressões estão sempre nos noticiários. Recentemente em Londrina, o caso do Colégio Thiago Terra, localizado no Jardim União da Vitória (Zona Sul), chamou a atenção. A instituição de ensino foi apredrejada e invadida por vândalos. A diretora recebeu ameaça de morte. Já o massacre de 12 estudantes no Rio de Janeiro colocou a violência escolar no Brasil nos noticiários do mundo inteiro.
Problemas graves em escolas são mais comuns do que se imagina. Tanto que as professoras Leoni Henning e Maria Luiza Macedo Abbud, do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a organizarem o livro ''Violência, Indisciplina e Educação'', que foi lançado ontem.
O objetivo da obra, de acordo com Leoni, é tentar entender as causas e apontar soluções para a crise enfrentada pela educação pública em todo o País. São artigos de acadêmicos e de profissionais de outras áreas, como médicos, arquitetos e promotores.
Nesta entrevista, Leoni aponta que a saída para os problemas está também fora dos muros escolares, uma vez que o papel da família na formação das crianças é essencial. ''Não se pode deixar simplesmente a educação na mão da escola. A afetividade na família é insubstítuivel'', destaca.
Quais são as principais causas de violência e indisciplina na escola?
O livro mostra quão complexo é esse fenômeno. No livro a questão é analisada por profissionais que atuam em nove diferentes áreas do conhecimento. Incluímos desde profissionais da área acadêmica até médicos, promotores, arquitetos. É importante colocar que essa questão não acontece só no Brasil, mas em todo o globo. A escola tem responsabilidade para atuar no enfrentamento, mas o trabalho dela é limitado, pois faz parte de um mecanismo social muito mais amplo. As famílias hoje vivem condições desafiadoras para o seu sustento. As pessoas assumem vários papéis na sociedade, atividades múltiplas e o atendimento a suas crianças é muitas vezes precário. A criança, algumas vezes, pode estar bem instalada em casa no momento que os pais saem, mas elas requerem cuidados e atenção mais íntimos. Esse é um mal que está acontecendo. Observamos, no entanto, que o papel da família é fundamental.
É comum pais confundirem qual é o papel da escola? Pensarem que na escola os filhos vão aprender a ter disciplina e de certa forma sobrecarregam os professores?
Certamente, acho que não só os pais, mas as pessoas em geral também. Às vezes eles esperam demais. Esperam demais ao pensar que a escola resolve tudo. Grandes projetos filosóficos que pensaram a educação se preocuparam com isso. Qual o ambiente desejado para que a criança até a adolescência possa ser formada e se desenvolva? Ainda no século 18 já se pensou nisso. Aliás até antes. É um período de extrema importância. E não se pode simplesmente deixar a educação na mão da escola. Percebemos que ela não dá conta, pois essa parte de afetividade na família é insubstituível.
Por outro lado existem também aqueles que menosprezam o papel da escola, não percebem o papel formativo dela. A escola não é o lugar e o momento em que os pais se veem livres da criança para trabalhar.
Alguns dos autores usam no livro o termo ''violência da escola'' em vez de ''violência na escola.'' Por que esse conceito é utilizado?
Existem condições muitas vezes não explícitas quando a escola de uma forma até desavisada promove a violência. Quando isso ocorre? Quando há exclusão ou má avaliação excludente, por exemplo. Quando há preconceito e promoção de um grupo social em detrimento de outro. A escola pode também de certa forma rachar a identidade de um indivíduo quando ignora as individualidades culturais, religiosas, entre outras, de uma pessoa. Ou seja, a pessoa é alguém dentro da escola e lá fora é outra. É uma agressão não explícita, mas que acontece.
A violência na escola sempre existiu?
Sempre existiu, a violência é um fenômeno humano. Se formos analisar pelo ângulo da contemporaneidade, não podemos negar que a palmatória e aqueles castigos cruéis imputados às crianças indisciplinadas eram atos violentos ocorridos na escola e que poderiam provocar a reação de igual natureza por parte dos alunos.
Houve uma inversão de pápeis?
De certa forma essa afirmação é verdadeira. Ao buscarmos uma educação mais democrática, mais libertadora, isso de alguma maneira flexibilizou essas formas de tratamento, substituindo-as por outras condições até mais críticas, que os próprios alunos muitas vezes trazem para a escola. No entanto, ainda não conseguimos alcançar o padrão de escola democrática até pela dificuldade que os professores têm de realizar um trabalho de qualidade e pelo baixo salário. O professor precisa acumular vários trabalhos. Hoje não presenciamos mais na escola aquelas medidas violentas, excessivamente coercitivas. No entanto ainda não conseguimos criar uma escola democrática, segura e verdadeiramente formativa numa forma geral, mas há exceções.
O que poderia ser feito para reduzir a violência na escola?
A expectativa que as pessoas têm de soluções rápidas para essa questão é muito grande, mas o livro mostra a complexidade desse fenômeno. Existem vários fatores e um universo todo particular para cada situação. Então é muito difícil ter uma solução que abrange todos os casos. O que seria o ideal? Que pessoas preocupadas com esse assunto em suas localidades possam estudar o assunto e talvez até utilizar o nosso próprio livro como inspiração, para criarem soluções e modos alternativos de enfrentamento do problema. Mas, de uma forma geral, a solução começa com a família e passa também por um maior investimento no professor e na escola também. Existem muitas salas com excesso de alunos, sem estrutura adequada. Professores precisam ter tempo para pesquisar, senão suas aulas se tornam meras repetições, gerando desrespeito e mal-estar nos alunos.
Nas últimas semanas um colégio da Zona Sul da cidade esteve no noticiário por ter sido alvo de depredações. Uma das soluções apontadas para reduzir os casos de vandalismo foi investir no envolvimento da comunidade com a escola, com a realização de oficinas nos finais de semana nas dependências da instituição. Como a senhora avalia essa medida?
Acho que tudo aquilo que está próximo de nós, mas nos é estranho e não entendemos em sua plenitude, acaba sendo de difícil convivência. E isso pode ser simplesmente a escola. Por isso acredito que essa estratégia é importante, pois traz a comunidade para essa interação mais estreita e verdadeira com a escola.

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