ALEITAMENTO MATERNO - Projeto londrinense é referência nacional
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segunda-feira, 26 de maio de 2008
Érika Gonçalves<br>Reportagem local 
Seis meses de amamentação exclusiva e dois anos no total é a recomendação dos médicos, mas poucas mães conseguem atingir este índice. Seja por falta de tempo ao voltar a trabalhar, de informação ou até por opção, muitas mulheres desmamam seus bebês bem antes do tempo previsto.
Em Londrina, um projeto tem por objetivo dar apoio e informação para que a mãe amamente o maior tempo possível. A idéia serviu de referência para o Ministério da Saúde e será implantada em todo o País.
Em entrevista à FOLHA, Lylian Dalete, uma das coordenadoras do projeto, conta detalhes da iniciativa e afirma: muitas pessoas ainda pensam que a amamentação é um processo puramente biológico quando, na verdade, envolve também outros fatores. ''Ele é biologicamente determinado e socio-culturalmente condicionado.''
Como surgiu a rede Amamenta Brasil?
Surgiu de uma proposta aqui de Londrina, um comitê de aleitamento materno chamado CALMA. Esse comitê é inter-institucional, formado por universidades, hospitais, Secretaria da Mulher, da Educação, Pastoral. Nos reunimos uma vez por mês e uniformizamos as ações de aleitamento do município, fazendo cursos com os funcionários da rede pública de saúde. O Ministério da Saúde, sabendo disso, pediu que fizéssemos um projeto. Formamos um grupo de 11 pessoas em Londrina, sendo seis profissionais da UEL, quatro da prefeitura e um da Unifil. Construímos um cadernos de tutores, com toda a metodologia teórica e a questão da educação permanente em saúde.
Como funciona o projeto aqui em Londrina?
Antes de irmos para a Unidade Básica de Saúde (UBS), os funcionários nos mandam um diagnóstico sobre a situação do aleitamento. No curso, pedimos que uma parte da equipe dramatize uma experiência de aleitamento vivida por eles e em cima disso fazemos a discussão: o que foi problema biológico, problema de abordagem, problema sócio-cultural e problema do processo de trabalho em si. Baseado nisso, discutimos o que é preciso fazer para melhorar. O tutor tem a responsabilidade de retornar em três meses e avaliar o quanto já foi encaminhado, o que parou, e motivar o pessoal a retomar os compromissos.
O que essa proposta tem de diferente de outras?
Essa não vem com receita, com leis ou passos para seguir. Não temos uma proposta igual nem para Londrina, imagina para o País. Considera-se o problema de cada local de trabalho, valoriza-se aquele local, constrói-se um pacto de ações factíveis para aquele grupo.
Como foi o lançamento?
Foi feito em Maceió, com a formação de pessoas de cinco Estados, quatro de cada Estado mais dez de Maceió. Esses tutores formados vão chegar nos seus Estados e formar mais 40 tutores, que vão voltar para suas cidades e começar a fazer as oficinas nas Unidades Básicas de Saúde. É uma rede, que tem tanto potência, como capilaridade, ou seja, chega no último cantinho do Brasil.
Como vai funcionar a rede Amamenta Brasil?
Vamos fazer cinco oficinas macro-regionais, a primeira em Maceió, depois Manaus, Curitiba, João Pessoa e Brasília. Em Curitiba vão estar presentes representantes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. O Ministério vai certificar as UBSs que fizerem parte dessa rede, e uma das questões para ser certificada é a alimentação de um banco de dados com os índices de aleitamento de cada unidade. Teremos os índices de cada UBS, de cada cidade, de cada estado, e poderemos programar ações específicas.
Quais foram os resultados obtidos em Londrina?
Não temos resultados ainda em números, temos qualitativos. Os problemas são tratados antes de aparecerem, muda a forma como a mulher é acolhida e respeitada dentro da unidade. Encaminha-se as mulheres para o banco de leite, para o centro de lactação. O profissional está mais mobilizado. Mas ainda estamos trabalhando uma forma de medir isso em quantidade.
Falta um olhar social para o aleitamento?
Sim. Amamentar pode ser cansativo, doloroso e muito frustante se essa mulher não tiver uma rede familiar e uma rede social. Amamentar não é apenas da nossa natureza. Antigamente as meninas viam suas mães amamentando seus irmãos. Muitas mulheres que são mães hoje nunca pegaram um recém-nascido no colo, nunca viram amamentar. O aleitamento também precisa dessa vivência.
Porque os bancos de leite tem carência de doação? Faltam campanhas?
Fazemos muitas campanhas. Acho que talvez falte sensibilidade do profissional de orientar sua paciente a doar sempre que possível. Quando a mulher sabe da importância ou convive com alguém que tem um bebê em uma UTI ela se sensibiliza. A maior parte das mulheres aceita doar.


