Bela a partir de sua acepção mais simples (dar a cada qual o que é seu), a justiça ganha mais em beleza quando sua prática serena e equilibrada se traduz em vitória da verdade sobre a mentira, da humildade sobre a arrogância, da boa-fé sobre a hipocrisia.
A categoria dos enfermeiros alegra-se de poder testemunhar mais um ato de grandeza da Justiça brasileira, desta vez proporcionada pelo presidente do Tribunal Regional Federal da 3 Região, Tourinho Neto. Coube a ele, após exame criterioso da matéria, determinar a suspensão dos efeitos da liminar, concedida em primeira instância pela 5 Vara Federal de Brasília, sustando os efeitos da Resolução 197, do Conselho Federal de Enfermagem, que tornou possível aos enfermeiros fazerem cursos de especialização em acupuntura e atuarem nessa área.
A farta documentação levada à análise do referido magistrado, nela incluído parecer do chefe da Procuradoria da República, não esgota é bom que se diga as razões sustentadas por este Cofen quando condena com veemência as constantes tentativas de setores da classe médica de prejudicar, por todos meios ao seu alcance, a valorosa categoria dos profissionais de enfermagem.
No episódio da acupuntura a história, mais uma vez, se repete. Que estranho fenômeno os estaria levando a querer agora a exclusividade de uma prática que ainda há pouco repudiavam, por considerá-la de segunda categoria? Uma experiência diferente de transformismo? Ou apenas a possibilidade, finalmente vislumbrada, de garantirem para si, com absoluta exclusividade, um novo e promissor nicho do mercado?
Por que será que esses senhores não sabem, ou fingem não saber, que o exercício da acupuntura, por decisão da OMS, respaldada em congresso sobre o tema realizado na Sérvia (Itália), em 96, é facultado a todos os profissionais da área de saúde? Ou ainda que o 38º Congresso Mundial de Saúde e Terapias Alternativas, reunido aqui mesmo no Brasil, assinaria, pouco tempo depois, embaixo dessa mesma decisão?
É deplorável que, na tentativa de manter outros grupos profissionais sob seu domínio, eles não hesitem em recorrer a métodos mais próximos do feudalismo da Idade Média, mantendo-se olimpicamente afastados da realidade dos nossos dias. Saúde, hoje, se faz pela integração de equipes multiprofissionais. As responsabilidades se dividiram por força, inclusive, da evolução das outras carreiras, e isto não significa perder espaço, mas ganhar espaço, a ser compartilhado de modo harmônico e solidário. Até porque esta é imposição irreversível do mundo globalizado e uma exigência de outros segmentos profissionais. Como é o caso dos enfermeiros, que não abrem mão do direito de manter intactas ancorados na verdade e com a ajuda da Justiça, se necessário as conquistas alcançadas à custa de muita luta e ao longo de muito tempo.
GILBERTO LINHARES é presidente do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen)

mockup