A chegada de um filho é um momento muito especial! Entre a descoberta da gravidez e o nascimento, são muitos os preparativos para garantir o bem-estar da criança e da mãe. E, se muitas mulheres sabem a importância do pré-natal, não são todas que conhecem o impacto do consumo de álcool durante a gestação. Ainda faltam campanhas educativas sobre esse tema, mas a recomendação da Organização Mundial da Saúde é clara: grávidas não devem consumir qualquer tipo ou quantidade de bebida alcoólica – seja cerveja, vinho ou destilado.

Essa atitude faz toda diferença em termos de prevenção, inclusive para quem já está pensando em engravidar. Estudo publicado recentemente em uma prestigiada revista científica mostrou que o risco de aborto espontâneo aumenta 8% para cada semana adicional de uso de álcool entre a 5ª e a 10ª semana de gravidez, mesmo quando o consumo era baixo (até 1 dose por semana). Isso rebate justamente aquela frase equivocada que muitas ouvem sobre o assunto: ah, beber só um pouquinho não faz mal.

O alerta ganha contornos ainda mais relevantes para as brasileiras. Primeiro, porque a prevalência de uso de álcool durante a gravidez é de 15% no Brasil, índice superior ao registrado na região das Américas (11%). Além disso, o consumo abusivo de álcool aumentou, no último ano, de 11 para 13,3% entre as brasileiras, sendo as que mais exageram são aquelas com idade entre 18 e 24 anos, ou seja, em idade fértil.

E por que é tão prejudicial beber na gravidez? Porque o álcool atravessa a placenta, atingindo a corrente sanguínea fetal. Entretanto, o organismo do feto – ainda em formação – não consegue metabolizar essa substância, que permanece no seu sangue por mais tempo, até que seja eliminado pela circulação materna.

Como consequência, pode afetar o desenvolvimento do feto, causando desde disfunções mais sutis até a Síndrome Alcoólica Fetal, conhecida pela sigla SAF – uma doença grave que traz danos irreversíveis à saúde do bebê. Podem ocorrer alterações faciais a comprometimentos cognitivos, comportamentais e emocionais que permanecem por toda a vida. Crianças com SAF podem apresentar dificuldade de aprendizado e até complicações cardíacas.

Estima-se que, anualmente, cerca de 119 mil bebês nasçam com SAF no mundo. Setembro é o mês de prevenção da Síndrome Alcoólica Fetal e é importante reforçar que ela é totalmente evitável, principalmente porque não há cura e os cuidados disponíveis são para amenizar as consequências da doença.

Como mãe e especialista em dependência química, entendo que nunca queremos expor a saúde de nossos filhos a riscos desnecessários. Portanto, vale deixar bem claro: nenhuma quantidade de álcool é segura durante a gestação! Apoie a divulgação desse tema e compartilhe informações de qualidade. Do planejamento familiar à amamentação, os mitos que circulam sobre o consumo de bebidas alcoólicas devem ser combatidos, especialmente no que se refere ao período gestacional e a SAF. Vamos lá?

Erica Siu é biomédica, especialista em dependência química e vice-presidente do CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool

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