Álcool e coração - Dra. Lorena Hauer Reichert
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de abril de 1998
Dra. Lorena Hauer Reichert 
A bebida alcoólica é consumida desde a antiguidade, com o objetivo básico da busca do prazer, alívio de angústias e contato com o sobrenatural. O seu efeito desinibidor propicia uma melhor socialização e é o método de intoxicação mais popular na cultura ocidental.
A dependência do álcool requer o uso constante durante, pelo menos, 10 anos, não é hereditária, existindo, contudo, fator genético de predisposição e, com o passar do tempo, ocorre tolerância ao mesmo. Estima-se que dois terços da população adulta consomem álcool e dez por cento da população mundial seja dependente.
O álcool exerce efeito tóxico direto em vários órgãos, principalmente cérebro, fígado e coração. A doença cardíaca alcoólica inicia-se de forma gradual e imperceptível pelo usuário. Produz de forma progressiva, alterações no músculo cardíaco ocasionando dilatação e consequente diminuição da força de contração do coração. Instala-se então a doença conhecida como Miocardiopatia Alcoólica e o paciente apresenta um quadro progressivo de insuficiência cardíaca. Historicamente, em 1984 na Alemanha, Bollinger descreveu a presença de coração aumentando em autópsias de alcoólatras, denominando esses corações de Munich beer heart.
A miocardiopatia alcoólica é mais comum em homens da faixa etária de trinta e cinquenta e cinco anos, com história de consumo crônico de bebida alcoólica por mais de dez anos.
Algumas pessoas apresentam efeitos imediatos de toxicidade alcoólica sobre o coração, como arritmias ou dor no peito (angina), podendo, inclusive, ocorrer morte súbita. Os sintomas mais comuns são palpitações, desconforto torácico e mesmo síncope após bebedeira, o que foi denominado pelo Dr. Ettinger em 1978 como holiday heart, por ocorrer mais frequentemente nos feriados e finais de semana.
Para o tratamento da miocardiopatia alcoólica é necessária a interrupção da ingestão da bebida alcoólica. Na fase inicial da doença o quadro é reversível e mesmo na fase avançada há melhora significativa dos sintomas e tempo de sobrevida. Há necessidade do uso de remédios para o coração e, apenas excepcionalmente, de cirurgia cardíaca.
Nos últimos anos estudos têm demonstrado, por outro lado, que o uso moderado de álcool pode diminuir o risco de doença coronária, principalmente se a bebida tratar-se de vinho tinto. Esta bebida além de aumentar o chamado colesterol bom (HDL), contém antioxidantes que diminuem a oxidação do colesterol ruim (LDL), que é a substância que contribui para a formação das placas de gordura dentro dos vasos coronarianos. É necessário bastante precaução pois, mesmo o vinho, acima de dois copos diários, pode aumentar a pressão arterial e ocasionar derrame cerebral ou produzir doença do fígado, pâncreas, sistema nervoso e até câncer.
Além dos danos à saúde física e mental e diminuição da sobrevida, o uso abusivo de bebida alcoólica ocasiona problemas sociais decorrentes de violência, desemprego, desagregação familiar e acidentes de várias naturezas, como se tem notícia, diariamente, na imprensa. Em estudo realizado pelo Detran em 1997, verificou-se que 22% dos motoristas submetidos ao teste do bafômetro apresentavam taxas elevadas de álcool. Em avaliação realizada pelo Dr. Ricardo Ruediguer no IML de Curitiba, ficou demonstrado que 48% das vítimas de acidentes fatais, que não chegaram aos hospitais, apresentavam dosagem alcoólica bastante elevada.
É muito importante o constante trabalho para a conscientização da população quanto aos efeitos deletérios do álcool, principalmente entre jovens, pois no início do processo não há diferença nítida entre o bebedor social e o futuro alcoólatra.
- DRA. LORENA HAUER REICHERT é cardiologista no Hospital do Coração em Curitiba.


