Luiz Carlos da Cunha
É do senso comum entender o papel decisivo da ciência no progresso da sociedade. O estudioso americano Joel Mokyr publicou um apanhado histórico sobre o impacto das invenções no progresso da humanidade. No livro ‘‘A Alavanca da Prosperidade’’ (‘‘The Lever of Riches’’), ele desfila aquelas invenções e a elas atribui a verdadeira razão da riqueza social, compreendendo esta na abrangência do bem-estar material e cultural da sociedade.
Os saltos de progresso devidos aos motores a vapor, explosão interna, à eletricidade, à imprensa, ao telégrafo e sobretudo às invenções geradas pela ciência aplicada atingem números ilimitados, que crescem exponencialmente. A história da humanidade vista por esta lente delineia-se compreensível para explicar a razão por que as nações pioneiras no emprego utilitário dessas invenções distanciam-se céleres das demais.
E mais: o Oriente, que se auto-isolou dos investimentos técnicos e de capital do Ocidente no intervalo do século 18, paga até hoje por sua pobreza. Os povos senhores de conhecimento e suas aplicações no processo produtivo subjugam os povos mais atrasados. Entretanto, o fosso que os separa econômica e socialmente diminui quando aqueles se instalam na economia retardatária. O impacto direto e percebido da alavancagem técnica dá-se quase absolutamente na cidade.
Catalogar e descrever as transformações sociais provocadas pelas invenções e seus desdobramentos, como nos aponta Mokyr, reconhecendo nelas o fator mais importante da evolução histórica, é corretíssimo mas incompleto. As artes têm tido importante papel nas transformações sociais e no progresso das nações. De todas, é a arquitetura aquela que plasma na conformação física e espiritual da cidade a alavanca indissociável de transformação influente e duradoura. Mas o poder transformador da obra artística não é comensurável com a mesma contundência da criação técnico-científica. Requer mais tempo, é sutil em seu metabolismo. Rememorem-se as expressões do classicismo grego, a dormência mística e prodigiosa das criações góticas, o florilégio apoteótico do Renascimento, que perduram sobranceiros sobre toda arte que se produziu a posteriori ... E na música? Do pináculo de Bach, desfilando todos os clássicos e românticos dos séculos 17, 18 e 19...
Estas são considerações preambulantes para trazer um exemplo recente da arte como alavanca da riqueza de uma cidade. Ao Noroeste da Espanha, na orla do Golfo de Biscaia, dormitava até pouco na modéstia de seu meio geográfico nas fraldas dos Pirineus a cidade de Bilbao. A Fundação Guggenheim a escolheu para receber um museu em tudo inovador, a simbolizar a retribuição da América pelo cabedal erudito que recebeu da Europa. Concebeu-o o arquiteto canadense Frank Ghery. O Museu Guggenheim-Bilbao é uma arquitetura insólita, cujos volumes arremetem instáveis como se o arquiteto, recorrendo às lâminas de titânio, esculpisse de improviso o apólogo da irreverência construtiva. Choca e seduz, como se víssemos uma sinfonia de Shomberg.
Quando a fundação, assumindo US$ 300 milhões, exigiu do município o investimento de US$ 100 milhões na parceria, houve protestos daqueles que achavam absurdo uma cidade pobre, vivente de pesca e mineração carvoeira, com desemprego de 12%, gastar US$ 100 milhões com um museu. Um ano e meio depois da inauguração, o Museu de Bilbao promoveu a cidade de 400 mil habitantes a um dos pólos turísticos europeus, recebeu desde então 1,3 milhão de visitantes, faturou US$ 21,3 milhões, gerou um efeito multiplicador na economia de US$ 152 milhões e 3.816 empregos. O povo basco engalanou-se perante o mundo, comprovando a si e aos demais povos a vantagem do investimento cultural sobre o terrorismo como fator construtivo de sua nacionalidade. A xenofobia estiolou-se na prova cabal de entender a decrepitude do fanatismo ideológico diante das modernas conquistas da ciência e da arte, cada dia mais francas e eacessíveis na construção de sociedades mais ricas, democráticas e sábias.
A arte também é alavanca de riqueza.
- LUIZ CARLOS DA CUNHA é arquiteto em Porto Alegre

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