AL multiplica 'novo pobre' e 'novo rico'
No início do Plano Real, parecia que o Brasil caminhava para uma distribuição de renda mais justa. Entre 94 e 97, o ganho médio do trabalhador aumentou 20%. A euforia foi interrompida em 98. Deste ano até 2001, a renda do brasileiro acumulou queda de 11%. E o quadro se deteriorou: há 17 meses, só recua. Os dados, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estão na Folha Economia de ontem.
Estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre pobreza mundial endossa o quadro sombrio do IBGE. O Brasil está na 17º colocação. Em 1999, 9% dos brasileiros viviam com menos de US$ 1. Em 2000, o índice subiu para 11,6%. No curtíssimo prazo de um ano, o número de brasileiros que atravessam o mês com menos de R$ 90 cresceu 28,8%.
O Índice de Pobreza Humana (IPH) da ONU mostra mais: no Brasil, 11,3% das crianças têm probabilidade de 'não' chegar aos 40 anos. É um critério decisivo para indicar o tamanho do nosso atraso. Nosso e dos hermanos latinos. Todos os estudos sócio-econômicos dos últimos anos mostram a América Latina como campeã em desigualdades sociais, com 50% da população enquadrada na categoria 'pobre'. A Argentina é um novo e triste retrato dessa realidade: relatório da Central dos Trabalhadores aponta que, até dezembro, dois em cada três argentinos serão pobres. Em 1985, eram menos de 15%.
Até aí tudo soa coerente. A pobreza aumenta em uma região em crise e ponto final. Só um estudo, da Merril Lynch e Ernst & Young, não 'bate' com esse histórico de fome crescente. O levantamento refere-se ao aumento do número de milionários na América Latina no ano passado. A região passou a ter 280 mil afortunados com mais de US$ 1 milhão, segundo o critério da consultoria. O número é 12% maior do que o de 2000. A soma dessas boladas cresceu muito e rapidamente: juntos, os felizardos acumulam US$ 3,4 trilhões, 275% mais do que tinham em 1986.
No Brasil da renda em queda e do desemprego em alta, o número de milionários também aumentou. Em 2001, subiu para 90 mil 1% mais que em 2000. Em doze meses, quase mil brasileiros entraram para o rol dos peso-pesados do saldo bancário. Como certamente nem todos ganharam sozinhos na loteria ou são craques de futebol com salários pagos em euros, intriga imaginar que atividades são essas que oferecem remuneração tão generosa.
Ruth Meira





