Al Capone no poder
José Nêumanne
O que mais deveria estarrecer a consciência cívica do País se ela não estivesse, como parece estar, completamente anestesiada pela banalidade da violência de rotina – no esquema criminoso acusado de dez assassínios, agressões, chantagens e falsificação de notas fiscais para desvio de recursos federais e estaduais por prefeituras no Estado do Piauí, não são propriamente as evidências flagrantes do funcionamento de um tipo brutal de crime organizado.
Muito mais do que isso, espanta qualquer cidadão que ainda não tenha perdido a capacidade de se indignar é que os chefões da quadrilha denunciada pertenceram todos ao primeiro escalão do governo de Francisco Assis de Moraes Souza, o Mão Santa, do PMDB. Mais do que a truculência sanguinária dos chefões, assusta o fato de ocuparem postos de comando na Polícia Militar e até mesmo nas proximidades do gabinete do governador do Estado. Além de serem parentes e compadres, entre si, como se, de fato, fizessem parte de uma ‘‘famiglia mafiosa’’.
A escuta dos telefones do acusado de chefiar o esquema criminoso, o coronel PM José Viriato Correia Lima, feita por agentes da Polícia Federal de Brasília, Sergipe e Ceará, deslocados para o Piauí para investigar seus crimes, permitiu às autoridades desvendarem atividades semelhantes às desempenhadas por outro coronel PM, Hildebrando Pascoal, no Acre. Não é à toa que a CPI do Narcotráfico da Câmara está investigando a conexão dos esquemas mafiosos dos dois Estados. Em vez de esquartejar desafetos com motosserra, como fazia o oficial acreano, o piauiense ameaçava suas vítimas com a perspectiva de estraçalhá-las com rajadas de metralhadora.
É possível argumentar não ser o crime organizado uma peculiaridade exclusivamente brasileira. Qualquer país do mundo, por mais rico e mais bem policiado que seja, pode servir de cenário à atuação de gangues de grande poder de fogo. Mas mesmo na época da Lei Seca em Chicago, onde os gângsteres compravam a peso de ouro a cumplicidade de policiais e até de autoridades municipais dos mais altos escalões, era possível distinguir com clareza a fronteira existente entre a autoridade repressora e o crime a ser reprimido. Al Capone, o mais notório dos chefes criminosos, chegou a ser condenado à prisão. Por sonegação fiscal, e não pelos inúmeros crimes que cometeu, é certo. Mas impune ele não ficou.
No Brasil, contudo, os chefões criminosos chegam ao poder. Hildebrando Pascoal fornecia salvo-condutos para traficantes cruzarem barreiras policiais no Acre. No Piauí, Correia Lima passava cheques sem fundo para comerciantes e deles cobrava, como se seu credor fosse. Ambos cometiam seus crimes acobertados pelas divisas de oficial. O segundo ainda obteve, de lambujem, a garantia de que não seria punido, pois chegou a dispor de imunidade parlamentar nos nove meses em que foi deputado. Como se pode combater o crime encarregando o criminoso da tarefa?
E não me venham com essa história de que o Acre e o Piauí são Estados atrasados e, por isso, o exemplo deles não vale como modelo para o Brasil. Marco Aurélio de Abreu, filho de Dorival de Abreu, presidente nacional do PTN, partido no qual se inscreveu o prefeito de São Paulo, Celso Pitta, não pôde tomar posse na Secretaria da Administração, para que fora nomeado, porque estava preso. Isso mesmo. No país da impunidade, um cidadão foi impedido de assumir um cargo de primeiro escalão na prefeitura do mais populoso e mais rico de seus municípios por não gozar de liberdade.
Os Al Capones de Teresina, Rio Branco e São Paulo, mesmo quando sonegam seus impostos, podem ocupar cargos importantes na administração pública. Cargos dos quais, como ficou comprovado no caso do coronel Hildebrando Pascoal, é muito difícil arrancar os mais notórios e cruéis dentre os criminosos que neles desembarcaram.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista em Brasília

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