AJUDA HUMANITÁRIA - Comoção popular com grandes tragédias
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sexta-feira, 05 de fevereiro de 2010
Marian Trigueiros<BR>Reportagem Local 
Desde o terremoto que assolou Porto Príncipe, capital do Haiti, milhares de pessoas e empresas do mundo todo se mobilizam para arrecadar dinheiro, roupas e alimentos para a população do país mais pobre das Américas. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de US$ 2 bilhões foram arrecadados para ajudar o país. Mas o que leva as pessoas a ajudar apenas quando ocorrem grandes tragédias, já que, muitas vezes, não auxiliam nem mesmo a própria comunidade onde vivem?
Segundo a psicóloga Maria Otávia D'almeida, coordenadora da Comissão de Psicologia Ambiental do Conselho Regional de Psicologia (CRP-PR), em Curitiba, da qual uma das áreas de trabalho é voltada para emergências e desastres, a grande comoção é movida principalmente em função de uma solidariedade momentânea. Para ela, ainda que pontual, essa solidariedade não deixa de ser válida, no entanto, precisa ser trabalhada junto a órgãos e organizações para que as campanhas sejam educativas e não apenas reativas.
Por que é mais comum as pessas se comoverem diante de grandes catástrofes de outros países quando, muitas vezes, não ajudam pessoas próximas a sua realidade?
Podemos partir de uma palavra chamada solidariedade, que é muito difundida pelas religiões e pela própria convivência social. E as pessoas aproveitam esses momentos de grande comoção para exercitar essa solidariedade. Fazer um ato humanitário ou doar grandes quantias de dinheiro representa para elas como se estivessem saldando suas dívidas. As catástrofes acontecem e, como se a pessoa tivesse uma tomada de consciência momentânea, se envolve com o que pode, desde a doação de dinheiro a alimentos e roupas. Mas passa o efeito, passa a ajuda. As pessoas esquecem que o sentimento de solidariedade está relacionado com a fraternidade. Não a religiosa, mas com entender o que está se passando com o outro.
É mais fácil a pessoa se preocupar com pessoas que não conhece?
É mais fácil, mais cômodo e atende as expectativas políticas de individualismo. Nós somos hoje regidos mundialmente por um sistema capitalista em que o individual é muito mais importante, porque é o que produz mão de obra e o consequente lucro. O coletivo é mais difícil de manipular que o individual e, evidentemente, é mais cômodo para que o individual seja fortalecido.
E essa solidariedade momentânea é válida?
Não deixa de ser válida. Antes isso do que a imobilidade. Mas ela precisa ser trabalhada com ONGs e órgãos públicos para ser direcionada e ter uma estrutura pronta para isso. Senão, fica parecendo uma solidariedade manipulada. Quando acontecer algo, a ajuda aparece, mobiliza-se um grupo, mas depois passa. Independentemente dos desastres estamos suscetíveis a todo momento a isso, sejam acontecimentos de pequeno ou grande porte. E aí é quando deve haver o exercício da verdadeira fraternidade. Além disso, é importante a coordenação dos trabalhos, para que realmente as doações cheguem ao destino.
Como as pessoas poderiam exercer essa fraternidade e não apenas a solidariedade superficial?
No aspecto psicológico, a grande lacuna que existe é na formação familiar. Fomos perdendo ao longo dos tempos o conceito de famílias agregadoras e hoje temos famílias sobreviventes. É uma família que trabalha, produz, traz dinheiro para casa e estabelece regras de convivência, mas não afetivas. Essa perda de senso familiar fraterno foi o que desagregou toda a ajuda coletiva. Precisamos recuperar isso e fazer o dever de casa. Diante dessas catástrofes, devemos exercitar a ajuda, dentro do seio em que convivemos, como o meio social em geral. Isso para que nos tornemos aptos para sermos voluntários em qualquer evento desse porte.
Como o Brasil pode usar isso em benefício próprio?
O aspecto mais relevante a ser tratado é no âmbito de políticas públicas, pois o indivíduo sozinho não consegue um trabalho mais amplo. Somando-se a isso a organização de ONGs e de acompanhamento de políticas, até mesmo porque hoje se faz muito assistencialismo. Obviamente existe uma população que necessita desse tipo de trabalho, mas também precisa haver um acompanhamento, senão vira mercado de miséria. Infelizmente, pagamos o preço de ser um país jovem e recém-saído de uma ditadura política. Precisamos aprender com outros países que já têm uma certa infraestrutura para podermos trabalhar aqui e, assim, criarmos modelos internos. Do contrário, como podemos ter a pretensão de oferecer ajuda ao Haiti se temos vários Haitis aqui e não conseguimos lidar com isso?
Normalmente essas campanhas têm muita divulgação. Se não fosse assim, haveria tanta comoção?
O problema é que as campanhas estão sendo reativas, quando precisavam ser educativas, pró-ativas, para prevenirem no caso de alguma tragédia, como, onde, para quem e com quem fazer. É um processo educativo da sociedade. Só que as campanhas no sistema político em que estamos são reativas ao fator que aconteceu. Há necessidade de campanhas com engajamento e, infelizmente, o ser humano não é educado para isso.
O fato de a solidariedade ser mais reativa no Brasil está ligado a uma questão cultural ou religiosa?
Em princípio é uma questão multicultural, mas que também possui seu aspecto religioso, porque temos um controle de algumas religiões e isso tem um poder de infiltração de ideias. Tanto que há muita confusão entre solidariedade e fraternidade. Agora, o aspecto que se manifesta nessa comoção é cultural, porque somos uma cultura latina, de grande afetividade. Mas somos uma país de cultura jovem, que não tem história de guerras, tragédias. E por isso mesmo tínhamos a ideia, até anos atrás, de que nada acontecia no Brasil. Precisamos trabalhar essa cultura em todos os âmbitos da sociedade.


