Ajuda de inimigo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de dezembro de 1996
José Nêumanne 
A última pesquisa do Ibope registra um crescimento que pode ser classificado como espetacular, do prestígio popular do presidente Fernando Henrique Cardoso e de seu governo. A divulgação de seus resultados coincidiu com os depoimentos do governador Jaime Lerner e do ex-governador Brizola - ambos do PDT - na comissão especial que discute a reeleição na Câmara.
A primeira tentação é estabelecer uma relação automática entre os fatos. A popularidade de Fernando Henrique cresce porque essa tchurma de políticos profissionais fala mal dele e essa tchurma de políticos profissionais fala mal dele porque a popularidade de Fernando Henrique cresce. Pode não ser inteiramente verdadeiro, mas, pelo menos em parte, o é.
Na verdade, o presidente quer ficar no poder porque gosta disso - muito mais do que é obrigado, por conveniência social, a confessar. E seus adversários não querem enfrentá-lo de peito aberto porque sabem ser ele o adversário mais difícil. A soit-disant oposição não deixa de ter alguma razão, quando lembra que nem os generais, no período militar, tiveram peito para arrombar a porta desse tabu da reeleição na tradição política de nossa República. De fato. Só que o Brasil não é mais o mega-roçado de antes do Getúlio, mas uma grande e complexa sociedade urbana pós-JK. Já amadureceu o suficiente para poder decidir se mantém um governo que vem dando certo, ou não. Como fizeram os americanos na virada de Franklin Delano Roosevelt.
Seja como for, reeleição não é sinônimo de prorrogação e quem duvidasse disso poderia ter questionado a respeito o ex-presidente americano George Bush, que foi obrigado a passar o trono e certo para o adversário Bill Clinton, depois de uma malsucedida campanha reeleitoral. Bush esteve recentemente no Brasil, a convite de Mário Garnero, e teria uma contribuição maior a dar à tal comissão especial da reeleição do que Itamar Franco ou Leonel Brizola. Aliás, por que, bolas, não deixam nosso patético caudilho descansar em paz o sono bucólico dos chefes políticos aposentados?
O correligionário bem-sucedido de Brizola, Jaime Lerner, a bordo de seguidas vitórias eleitorais no Paraná, trouxe, prontinha, a idéia de convocar um plebiscito para decidir sobre a questão. É o caso de se perguntar: se a popularidade do presidente está tão alta como reza o Ibope, por que o pessoal do governo não topa de uma vez o plebiscito e resolve o problema? O referendo teria dupla vantagem. Em primeiro lugar, tornaria o processo de discussão no Congresso bem mais barato, pois transferiria o poder de decisão das mãos dos parlamentares de volta aos braços do povo. Em segundo lugar, serviria de prévia inquestionável da eleição propriamente dita. Se o presidente viesse a vencê-lo, quem ousaria disputar a eleição com ele um ano depois?
Exatamente aí que está o problema. Qual será a justificativa razoável para antecipar a sucessão presidencial de 1998 para 1997? Pois, na prática, isso ocorreria. Talvez o Brizola patético e quixotesco, que pregou o impeachment (imaginem!) de um presidente com 61% de aprovação popular, ainda se arriscasse a uma disputa. Mas dificilmente encontraria alguém que levasse a séria uma plataforma eleitoral do tipo troque um sociólogo por um engenheiro, lançada por ele em seu emblemático depoimento à comissão. Gente ainda capaz de pisar no chão - como o citado Jaime Lerner e o prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, mesmo nessa sua atual travessia do vale de lágrimas - dificilmente se arriscaria a uma disputa com o presidente da República, pilotando uma economia forte, uma moeda saudável e elevados índices de aprovação popular e ainda saído de uma vitória indiscutível numa disputa plebiscitária, na qual teria enfrentado todos seus eventuais adversários numa condição única, pois estariam unidos. Unidos, é bom que se diga, circunstancialmente. Pois a realidade de sua ambições pessoais e partidárias logo os poria em conflito na disputa posterior.
A bem da verdade, a julgar pelos últimos fatos, por mais que muitos de seus amigos atrapalhe, Fernando Henrique é mesmo um homem de sorte, pois os inimigos o ajudam com uma generosidade comovente.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.


