É indiscutível o fato de que hoje em dia se fala muito mais abertamente sobre as questões relativas ao uso, abuso e dependência das drogas. Estatísticas têm sido realizadas e as conclusões que surgem são no mínimo inquietantes. O uso de drogas entre adolescentes é um dos principais problemas de saúde pública tanto no Brasil como em outros países.
A cada dia recebemos notícias do surgimento de novas drogas no mercado e mais nos surpreendemos com a capacidade humana de transformar substâncias aparentemente inócuas em instrumentos para alterar o estado de consciência. O ser humano cada vez mais parece sonhar com a fórmula que irá eliminar os seus problemas, mudar seu estado de espírito, aumentar a sua virilidade e, na busca de realização deste desejo, utiliza-se de métodos que pouco têm a ver com a realidade. Apesar do grande número de informações disponíveis, pouco se tem falado sobre uma questão fundamental: como ajudar um dependente a se recuperar?
É fato que para um tratamento ser bem-sucedido é imprescindível a adesão do paciente. Porém, problema com o qual nos defrontamos é que em se tratando de dependência de drogas, o principal interessado dificilmente quer ajuda. É raro um dependente procurar ajuda espontaneamente .
Uma das características mais marcantes desta doença é a perda da condição de perceber o que está acontecendo. O sujeito diminui a intensidade dos problemas, responsabiliza os outros, faz promessa de que aquilo não mais irá ocorrer. O resultado é sempre o mesmo: as perdas continuam - e cada vez mais intensas.
Diante dessas constatações, muitas pessoas tentam intervir confrontando o dependente com a realidade. Este recurso, embora algumas vezes funcione, mais frequentemente acarreta graves conflitos, culminando com maiores decepções. Não devemos esquecer que a fragilidade emocional obriga esta pessoa a evitar o contato com seus problemas (entre eles o reconhecimento de sua dependência), mesmo às custas do agravamento de seu estado.
Seguindo este caminho, vale lembrar a comparação feita por um estudioso do assunto ao dizer que assim como Popeye precisa de seu espinafre, o dependente precisa de sua droga para enfrentar o mundo. Compreendendo melhor esta questão, talvez fique mais claro o motivo pelo qual as informações mais disponíveis sobre o risco causado pelo uso de drogas, ou conselhos de familiares e amigos, acabem tendo tão pouca repercussão sobre o comportamento do dependente.
Outro aspecto que tende a confundir um observador menos atento é que outra característica que chama a atenção são as frequentes recaídas e remissões que podem confirmar a crença de que o problema está sob controle da vontade do indivíduo. Afinal de contas, se a pessoa pode ficar um período sem se drogar, por que não fazê-lo permanentemente? Beber, drogar-se, não são atitudes que dependem da vontade?
Na verdade, muitas crenças precisam ser revistas. Insisto em lembrar que o dependente não quer ser ajudado porque está prisioneiro deste modo de funcionar. Mas existem saídas. A recuperação é possível. A não acomodação dos familiares, a identificação precoce, a busca pelo auxílio especializado, o acompanhamento a longo prazo são aliados da evolução bem-sucedida.
CARMEN DE BAKKER SILVEIRA é psicoterapeuta em Curitiba e coordenadora do programa de tratamento da Clínica Quinta do Sol, especializada em terapia do alcoolismo e outras drogas

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