Nesta semana, os bebês reborn voltaram ao noticiário após uma mulher pedir ajuda em uma UPA e mencionar que a “bebê” apresentava sintomas de gripe. O caso reacendeu o interesse por esses bonecos, que chamam atenção menos pelo valor artesanal e mais pelas reações sociais que provocam. Uns riem, alguns se comovem, outros tentam entender.

Recentemente, um padre afirmou que não batizaria nem realizaria a missa de sétimo dia de um “reborn que arriou a bateria”. Um político defendeu a internação compulsória de quem leva um boneco ao hospital. Casais já disputaram a guarda de reborns na Justiça ou o controle dos seus perfis nas redes sociais. Até o parto de um reborn foi exibido em rede nacional, em uma novela, evidenciando o alcance desse fenômeno na cultura midiática.

Diante dessa visibilidade e das polêmicas que suscitam, projetos de lei surgem — ora em tom protetivo, ora em tom de contenção. Esses episódios, embora aparentemente exóticos, expõem tensões sobre cuidado, maternidade e paternidade, ética, direitos e práticas afetivas legítimas na sociedade contemporânea.

Os bebês reborn são bonecos hiper-realistas feitos em vinil siliconado, criados com técnicas que imitam a aparência e o peso de um bebê. São associados ao colecionismo, à arte ou a fins terapêuticos — há quem os adote por luto, solidão, infertilidade ou como forma de reencontrar memórias afetivas. Algumas pessoas, porém, os tratam como filhos: compram enxoval, fazem chá revelação e lhes dão nomes. Essa performance de cuidado, quando pública, desperta espanto e repulsa, revelando o quanto ainda são rígidos os limites socialmente impostos ao afeto e à corporeidade.


icon-aspas A sociedade tolera o afeto, mas apenas quando ele se manifesta dentro de certas normas

Mas afinal, o que está em jogo quando alguém escolhe cuidar de um boneco com o mesmo zelo dedicado a um bebê real? Por que esse gesto, que tem tantas camadas afetivas e simbólicas, gera tanta inquietação?

Além do objeto, o que se estabelece ali é uma relação, e é nesse ponto que surgem os desconfortos. A sociedade tolera o afeto, mas apenas quando ele se manifesta dentro de certas normas: entre humanos, com justificativas claras e papéis reconhecidos. Quando o cuidado se volta para algo que não é vivo e é carregado de emoção, há quem reaja com zombaria, ironia ou desprezo.

E por que rimos? Parte da resposta está em como naturalizamos a ideia de que só certos vínculos merecem respeito. Rimos porque não compreendemos, porque não suportamos a dor que ali se expressa, porque não sabemos lidar com afetos que não se encaixam nas normas da razão.

A intensa circulação de memes, piadas e julgamentos sobre os pais e mães de bebês reborn revela que estamos diante de um fenômeno que mobiliza valores sociais e morais profundos. Mas o riso, como apontou Henri Bergson, muitas vezes funciona como um mecanismo de correção social: rir do que é desviante serve para reafirmar a norma. Assim, ao rir das mães de reborn, e do que elas esperam como reconhecimento, a sociedade reafirma o que considera real, sadio ou natural.

Axel Honneth lembra que o reconhecimento estrutura a identidade e a dignidade dos sujeitos. Quando negado, o indivíduo é reduzido à anormalidade. Rir de quem cuida de um reborn é rir da carência — ou da forma que alguém encontrou para sobreviver a ela.

Claro que há limites: em alguns casos, o reborn pode se tornar um substituto absoluto das relações humanas, o que exige escuta e acompanhamento profissionais. No entanto, negar — ainda que indiretamente — o direito de alguém ter um reborn revela menos sobre o boneco e mais sobre a nossa dificuldade em reconhecer o sofrimento do outro. Talvez esse fenômeno não fale sobre fantasia, mas sobre o mundo real, em que as pessoas envelhecem sozinhas, vínculos se desfazem, mães perdem filhos e o afeto precisa encontrar algum lugar para continuar existindo.

Silvano Aparecido Redon

Professor de Sociologia do IFPR (Instituto Federal do Paraná)


ESPAÇO ABERTO

Espaço aberto é uma seção diária, no impresso e digital, que publica artigo dos leitores e assinantes da FOLHA

Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.

COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]

ÚLTIMAS NOTÍCIAS| Acompanhe as notícias de Londrina e região no canal da Folha de Londrina no WhatsApp

https://whatsapp.com/channel/0029Va8N2DN84Om5Akznga0h

mockup