LUIZ GERALDO MAZZA
Ainda o confessionalismo
O novo alinhamento geopolítico, acelerado depois da queda do Muro e do fim do ‘‘socialismo real’’, que estaria embutido na precária profecia de Fukuyama com o tal esgotamento da história (e, no entanto, ela está aí como Galileu dizia do movimento dos astros), é que rege o pensamento atual. Tudo o que vem da matriz - não apenas poder, mas também filosofia, raciocínio e dentro em pouco chegam nos domínios do poético e do lúdico - é axiomático, incontestável. Não apenas sobre o que acontece, mas também o ‘‘devenir’’, o prospectivo.
Para começo de conversa, a morte do socialismo real não significa a superação do socialismo que como idéia ainda anima movimentos em toda humanidade. No penúltimo livro de Norberto Bobbio ‘‘Dextra, Sinistra’’, que o presidente FHC leu e não entendeu por ter afirmado que os conceitos de ‘‘direita’’ e de ‘‘esquerda’’ teriam sido superados, houve mais um esforço para aproximar os valores da ‘‘liberdade’’ aos da ‘‘igualdade’’.
Dos autores da esquerda, mitigada com o tempo e com o avanço da democracia, Bobbio foi o que mais se empenhou, num esforço redutor e interativo, para que tais pólos se aproximassem. Indicou que a ‘‘liberdade’’ seria a essência maior do liberalismo, que ele ajusta em sua dialética à direita, e a ‘‘igualdade’’ o fator distintivo do socialismo, que escoimava dos exageros igualitários de traço radical.
A ordem que está aí, agora e nos seus desdobramentos, tende a negar tanto a liberdade, que se tornará um instrumento inútil numa teocracia caricata e não menos fundamentalista, como qualquer perspectiva de igualdade, a não ser aquela que manterá a maioria esmagadora da humanidade fora do usufruto do poder. Nega-se, sobretudo, a diversidade das formas de como conduzir, por exemplo, a economia e de como salvar identidades locais, o que ainda existe na China Continental, todavia com a deformação de um máximo de intervenção até para ditar em que espaços se curte a tradição e nos quais se assimila o fator capitalista.
Uma foto de primeira página em ‘‘O Estado de São Paulo’’ sobre as multidões de migrantes do Zaire se batendo nas estradas e ao alto o out-door ‘‘Sempre Coca-Cola’’, em língua francesa é claro e seu charme semântico, talvez seja a essência da globalização. Aquele povo se concede o direito de estar no mundo e sorver o refrigerante cosmopolita e viver, de forma simultânea, o torpor da exclusão.
BIZARRICE O vereador do PDT, Jorge Bernardi, é um artista: uma vez queria fazer reforma agrária com colonos que deslocou à Amazônia e na sequência teve que buscá-los de volta. Depois apresentou um projeto para que não se chamasse de gari (ou lixeiro, o que seria pior) o empregado da limpeza pública e, sim, de ‘‘operador ecológico’’. Depois para que não houvesse discriminação pretendeu que a empregada doméstica fosse denominada de COLF, abreviatura de ‘‘colaboradora familiar’’.
Assim mesmo, não é o campeão: houve um, no passado, que tentou revogar a lei da oferta e da procura.
AXIOMA Cobrar ligação não completada é a mesma coisa que tratar o aperto de mão como se fosse uma relação sexual completa. Claro que isso não tem graça nenhuma, mas lembra o papel de palhaço que fazemos diante das teles levadas à glória da privatização. Fazem um trabalho completo em nós.
GLOSA Caminhoneiros fazem hoje um protesto nacional contra as taxas de pedágio (as nossas serão das mais devastadoras), mas o governo permanecerá inflexível na manutenção do sistema sob a alegação de ter perdido a capacidade de fazer qualquer tipo de investimento. Fala-se em modernidade, mas voltamos ao tempo do feudalismo: as estradas pedagiadas lembrarão claramente isso. Elas foram construídas com dinheiro público e agora com as maquiadas são dadas e cobradas como feitas pelos consórcios.
DIVISAS Um dos orgulhos (uma tolice, na verdade) era o de que o Paraná se constituía no Estado que gerava mais divisas líquidas. Só que não tinha características importadoras. O saldo em 94 foi de US$ 1,9 bi, em 95 de US$ 1,1 bi, em 96 de US$ 1,7 bi, em 97 de US$ 1,4 bi. Já em 98 ele foi de apenas US$ 163 milhões. Consequência da nova realidade econômica e portuária. O Brasil, desde 95, acumula saldos negativos: em 97 foi de menos US$ 8 bi e em 98 de menos US$ 6,4 bi. Não vai ser fácil cumprir metas do FMI.
FOLCLORE Um diretor da secretaria de Administração informou aos professores que só na folha de agosto é que serão retirados os descontos da previdência, conforme decisão que não vem sendo cumprida.
Um pessimista militante, ao ouvir a notícia, comentou: ‘‘Se nem o pagamento de julho está assegurado, não há como garantir o de agosto!’’ Aliás quantos mais descontos forem retirados mais difícil será fechar a folha.
CROMO Vejo a mesa do Maneko’s Bar// e tento recompor o arquiteto Sola// tão só como aquele quarto do Van Gogh// na tela magistral// em busca do seu tempo lírico// um impulso proustiano //vivências infantis e juvenis de Cambé// seu amor à arte// (vídeos, CDs, livros, quadros)// em briga permanente com a vida// que levou até o fim// como se o itinerário fosse traçado// na prancha ou computador// nos quais delineou//a metrópole que unia Maringá a Londrina// sem esquecer a ilha// prisão e lar// de Cambé// onde agora repousa.//
AFORÍSTICO Aníbal Khury nunca teve influência direta no poder em Curitiba. Não tinha. Hoje ele age como se fosse o ACM na Bahia. É como dizia aquele cínico: nada-se na complacência alheia. Graças a Lerner e Taniguchi é o eleitor-mor, uma liderança por gravidade, como diz o irmão, ex-deputado Jorge Khury.
- Por problema técnico, republicamos ontem a coluna de Luiz Geraldo Mazza de sábado. Para que os leitores não fossem prejudicados, o texto que deveria ter saído no domingo ocupa hoje o espaço acima.

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