Parece claro que o governo Bush só concordou em endossar a liberação de recursos do FMI para o Brasil depois de um formidável movimento lobista, liderado pelos próprios banqueiros internacionais. Não fosse isso, talvez a semana tivesse virado com o câmbio a uma taxa superior a R$ 4,00 por dólar. Teria sido o caos.
O fato é que o FMI funcionou como emprestador em última instância da economia brasileira. O drama do Brasil, que é também o drama dos investidores internacionais, é que esse acordo não veio amarrado a nenhuma forma de mecanismo que pudesse solucionar os problemas estruturais que geraram a crise. Na prática, todo recurso que aqui aportar do FMI apenas substituirá a exposição daqueles investidores que tiverem a felicidade de repatriar seus capitais. É como se estivesse ocorrendo uma ''estatização'' da dívida brasileira pelo Tesouro dos EUA, que vai tornando-se o grande credor do Brasil. Isso, em um governo republicano, não deixa de ser uma fina ironia.
Na verdade, o acordo conseguiu apenas trocar o momento do defaut, de agora para daqui a pouco, tão logo os recursos liberados forem esgotados. Para o Brasil o acordo foi muito bom, pois dá à nossa elite dirigente algum tempo para definir o que fazer. Para os banqueiros, também foi bom, porque podem salvar alguns recursos que, no curto prazo, teriam que declarar como perdidos. Para o governo Bush, creio que não foi bom: flexibilizaram em questões de princípios e colocaram recursos do contribuinte americano em algo que, a princípio, não lhes diz respeito.
O argumento de que os recursos liberados ''salvaram'' a economia mundial de uma crise não resiste ao exame. Salvaram, mesmo, foi a exposição de alguns espertos e o vexame de FHC entregar o governo em situação mais desesperadora.
Os possíveis mecanismos para superação da crise começam e acabam em um único ponto: na redução do Estado. O governo FHC, em um atestado de cegueira da pior espécie, ainda teve a cara-de-pau de enviar vários projetos de lei ao Congresso propondo revisão de salários de funcionários públicos, ora em tramitação. É de um irrealismo notável. Esse alheiamento de FHC à realidade das coisas é que está na raiz da atual crise.
Combater a crise para valer significa congelar salários de funcionários públicos, congelar salário mínimo, cortar os ditos programas sociais sem dó nem piedade, rever a concessão de benefícios da Previdência Social, significa implantar um programa consistente e claro de resgate da dívida publica, o que exige muito mais do que os propalados 3,75% de superávit primário. Uma política assim, em um ano, daria frutos de longo prazo para o Brasil, favorecendo o desenvolvimento.
Por outro lado, é imperativo reduzir importações e aumentar exportações, gerando grandes superávits na balança comercial. Em português claro, estamos falando aqui de uma profunda recessão, a fim de reorganizar o setor externo da economia, em paralelo com a redução da dívida pública e dos gastos do Estado. O novo governo poderá fazer qualquer ação, desde que cumpra esses requisitos. A alternativa é o caos.
O ano de 2003 será, em tudo e por tudo, muito difícil. Haverá uma grande crise, cujas primícias estamos sentido agora. Alguém precisa avisar ao professor Cardoso que não cabe aumentar salários de funcionários públicos e aos brasileiros para apertarem os cintos. Cada centavo deve ser economizado para fazer frente aos tempos sombrios que se aproximam.
NIVALDO CORDEIRO
O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas-SP

mockup