O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que cresceu às margens do Rio Doce, em Minas Gerais, bateu no gabinete da presidente Dilma Rousseff (PT) na última sexta-feira, apresentando um projeto de revitalização do rio que agoniza após receber toda a lama das barragens de rejeitos da mineradora Samarco. Acostumado a fotografar a natureza (belezas e tragédias), Salgado criou há uma década o Instituto Terra, entidades sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento do Vale do Rio Doce. É óbvio que o fotógrafo não descansa desde o rompimento das barragens que destruiu um distrito de do município de Mariana. Segundo Salgado, o custo da recuperação das nascentes do Rio Doce partem de R$ 3 bilhões.
Talvez, ainda sob o efeito do encontro com Sebastião Salgado, Dilma veio a público, anteontem, anunciando que pretende transformar a tragédia de Mariana em um caso exemplar de recuperação ambiental. Mesmo sem saber como e quanto vai custar, a presidente afirmou que quer transformar o Rio Doce naquilo que foi no passado distante, quando a Mata Atlântica dominava a paisagem da região.
Depois dessa avalanche de lama, é certo que a população não precisa ser submetida a um banho de pessimismo. Mas também não caiu bem a demonstração de otimismo forçado da presidente. O que muitos ambientalistas dizem é que o Rio Doce morreu, mas que ele pode ressuscitar. O grande volume de sedimentos que atingiu o manancial acabou com a oxigenação da água e com qualquer chance de vida aquática. Mas isso não é tudo. Ninguém sabe as dimensões da tragédia, pois o desastre ainda está em curso. A água turva já passou pelo município de Governador Valadares (MG) e chegaria ontem a Colatina (ES).
Ambientalistas da Bahia também estão preocupados que a lama de Mariana chegue a um dos mais importantes ecossistemas do Brasil, os recifes de corais de Abrolhos. A chegada de toda essa sujeira ao santuário depende da posição do mar e do vento. Até aqui, falamos de crime ambiental. Mas existe a perda de vidas, de bens materiais e culturais.
É inconsequente e precipitado afirmar que o Rio Doce, com os seus 880 quilômetros de extensão, vai ficar melhor do que era antes do desastre. O que se esperava da presidente Dilma e do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), era o comprometimento de que a Samarco se responsabilizará financeiramente pelos estragos causados aos moradores de Mariana e ao meio ambiente. E que os órgãos públicos realmente cumpram a sua função de fiscalizar com seriedade empresas cujas atividades representam riscos à vida da população e ao meio ambiente.

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