No meio das centenas ou milhares de matérias enfocando os desdobramentos do ataque terrorista de 11 de setembro, com a retaliação comandada pelos Estados Unidos, duas chamam a atenção pela gravidade do seu conteúdo: a defesa que Charles Krauthammer faz dos tribunais secretos adotados pelo governo Bush (''In Defense of Secret Tribunals'', Time, 26/11), e o artigo de John McCormick, jornalista do ''Chicago Tribune'', indicando as formas pelas quais se deve ''esclarecer'' as crianças contra as objeções que levantam contra a guerra (''Enlightening the little pacifists'', Newsweek, 26/11).
Enquanto o primeiro vai elencando argumentos para demonstrar que, em ''tempos de guerra'', os cenários ético-legais devem ser superados em nome da segurança, o segundo afirma que conseguiu buscar em Santo Agostinho e São Tomás os argumentos para enfrentar o pacifismo nascido dos movimentos contra a guerra do Vietnã.
O horror suscitado pelos ataques terroristas, o sentimento de medo e insegurança, a necessidade de uma ''resposta à altura'', tudo isto tem produzido uma sensação de que estamos frente a uma ''guerra justa'', perseguindo os inimigos da liberdade, da democracia e da humanidade. A mídia internacional tem atuado como se fosse uma única voz, dividindo a humanidade em dois campos bem delimitados: ''eles'', o Mal, e ''nós'', o Bem. Em nome dessa ''guerra santa'' do Bem contra aquela ''guerra santa'' proclamada pelo Mal, as liberdades civis vêm sendo espezinhadas, os preceitos éticos postos de lado, as pessoas sofrendo perseguição e retaliação por conta de sua raça ou credo religioso.
Tudo isto sem contar aqueles que vêm sendo sistematicamente massacrados por terra e por ar, especialmente os civis inocentes, reduzidos hoje à mera condição de ''acidentes colaterais'' dessa guerra, e pelo morticínio insensato que grassa entre israelenses e palestinos, por conta da intolerância e da imbecilidade de governantes que perderam o sentido de seu compromisso humano e ético. E, para agravar ainda mais a situação, o visível crescimento do velho pecado dos poderosos, a ''arrogância do poder'', dos que, fala Deus pela palavra do profeta Miquéias, ''comem a carne do meu povo, arrancam-lhe a pele, quebram-lhe os ossos, cortam como se fosse um assado na panela'' (Miq 3,3).
Diante dessa situação, os educadores não podem silenciar.
É verdade que, em nosso País, vivenciamos tudo isso apenas de forma indireta, distantes que estamos do epicentro dessa insensatez. Mas não podemos minimizar os efeitos (anti) educativos dos relatos diários feitos pelos meios de comunicação, subordinados e vergados aos interesses econômicos, financeiros, políticos e estratégicos do Estado líder de uma das partes, que se identifica com o Bem. Quais poderiam ser tais efeitos? A banalização da guerra transformada em espetáculo de mídia (que esconde sua face de horror e sangue), a diluição dos preceitos éticos que colocam o respeito à vida acima de quaisquer outros valores, o fortalecimento de preconceitos contra o ''outro'' e o ''diverso'' (racial, ideológico ou religioso), a identificação dos pacifistas com ''inocentes úteis'' a serviço do Mal, a disseminação da idéia de que é a inveja da prosperidade da nossa ''civilização'' que provoca o ódio dos que são ''diferentes''.
Como educadores, temos o dever de combater de frente tais efeitos, mesmo que para isto tenhamos de ''remar contra a corrente'', ou, como os antigos profetas, de pregar no deserto. Somos responsáveis pelas responsabilidades históricas das novas gerações, cujo futuro não pode ser pautado, daqui para a frente, pelo gesto insano de um punhado de terroristas. E é isto que acontecerá se abrirmos mão de todas as conquistas éticas e morais que nos permitiram construir conceitos como ''liberdade'', ''direitos'', ''tolerância'', ''respeito'', que estão na raiz de nossas vivências e convivências. Como escrevia Dietrich Bonhoeffer pouco antes de sua detenção pela Gestapo: ''Pensar e agir com vistas à nova geração, e nesta atitude estar pronto para prosseguir sem medo nem preocupação, todos os dias, eis o comportamento que se nos impõe. Certamente não será fácil suportar tudo isso com coragem, mas é necessário.''
Como educadores, cabe-nos conservar o otimismo que representa uma energia de esperança, uma força que jamais entrega o futuro. Como alerta João Paulo II (na sua Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte), ''no início deste novo século, o nosso passo tem de se tornar mais rápido para percorrer as estradas do mundo'', com o objetivo de fazer com que ''o nome do único Deus se torne cada vez mais aquilo que é: um nome de paz, um imperativo de paz''.


- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná

mockup