A má notícia é que a população feminina brasileira com Aids cresce cada vez mais rápido. Há 13 anos, para cada 28 casos de Aids em homem no Brasil, havia uma mulher acometida pela epidemia. Hoje, tal proporção é de três homens para uma mulher, sendo que em algumas regiões brasileiras é de dois para uma. Com essa alarmante realidade, aumentou o número de casos de Aids em crianças. Isso porque 90% da Aids na população infantil decorre da transmissão da mãe infectada pelo HIV para seu filho. E o contágio tanto ocorre na gestação ou no trabalho de parto, quanto no próprio parto ou na amamentação.
Segundo o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, os casos de Aids notificados no Brasil desde 1980 remontam a 135 mil e 200, dos quais cerca de 5% são em crianças. Isso até pode parecer pouco, se comparado com outros graves problemas que afetam a criança brasileira. Mas é importante lembrar do alerta que acaba de fazer a Unaids, a mais recente agência da ONU, para o problema da especial vulnerabilidade das crianças, para as quais a Aids é uma nova ameaça. E, no Brasil, com o crescimento da epidemia nas mulheres, tal ameaça é crescentemente mais grave. Sem falar no triste prognóstico de falta de assistência das crianças cujos pais estão vivendo com HIV/Aids; e esse contingente é estimadamente muito grande.
A boa notícia é que se pode reduzir em 70% o risco de o bebê nascer infectado. Quem garante é o uso de um coquetel de remédios, pela mulher grávida infectada e pelo bebê, logo após o nascimento. Anunciada no final de 1994, é uma das mais animadoras descobertas da ciência desde o aparecimento da epidemia no início dos anos 80. Também é muito animador constatar que no Brasil, destacando-se entre os países em desenvolvimento, o Ministério da Saúde fornece o AZT na rede pública de todo o País. No entanto, o número de mulheres grávidas infectadas que usam o medicamento é muito inferior ao esperado, podendo-se concluir que muitas grávidas infectadas não estão sendo identificadas no pré-natal. Assim, não são tratadas com o AZT e perdem a oportunidade de prevenir a transmissão do vírus para seus filhos, na proporção de um para cada três casos da chamada transmissão vertical.
Mas a receita existe. Temos de garantir à população feminina informações permanentes sobre a prevenção da Aids e também estimular a realização de testes anti-HIV em todas as gestantes no pré-natal, independentemente de apresentarem risco para a infecção, sempre de forma voluntária e com aconselhamento. Também temos de assegurar o uso do AZT oral e injetável, disponível na rede pública de saúde, assim como orientação às gestantes infectadas para não amamentarem seus filhos, junto com o necessário fornecimento de leite em pó.
Autoridades sanitárias, profissionais de saúde e organizações não-governamentais devem trabalhar junto com o governo federal para prevenir a Aids infantil. Estão disponíveis os recursos na rede pública para combater a transmissão vertical, mas são subutilizados. Temos de mobilizar toda a sociedade para essa luta pela prevenção da Aids, na qual os organismos internacionais com sede no Brasil já estão engajados. A vitória depende de todos nós.
- AGOP KAYAYAN é representante do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no Brasil e coordenador do Sistema ONU para prevenção da Aids no Brasil

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