AIDS em bebês e descaso de Planos e médicos
É dever da mãe gestante tomar medidas preventivas, durante a gravidez, para evitar a eventual transmissão de AIDS ao nenê, mas esta é obrigação sobretudo do ginecologista, que deve fazer exigência da sorologia para HIV durante o pré-natal. Reportagens publicadas nos últimos dois dias por este Jornal revelam que deve haver cuidado de parte a parte, mas se muitas mães pecam por ignorância, isto não pode ocorrer com os médicos da especialidade. Mães denunciam casos em que o ginecologista nunca conversou com elas sobre a doença e nem pediu que fizessem teste. Não se pode generalizar, porém. O cuidado não deve ocorrer apenas durante o período de gestação e sim, especialmente, no momento do parto, pois é em tal ocasião que ocorre a maior parte das contaminações. Os Planos de Saúde também são responsáveis, porque segundo afirmação da infectologista Jaqueline Capobiango, citada nas reportagens a esmagadora maioria dos convênios médicos não cobre esse custo extra, o que configura grave falha. Ela afirma que o teste é simples e de custo acessível, que compensa face ao problema maior que virá sem ele, e que o procedimento preventivo (antes e durante o parto) é a única chance que o bebê tem de não ser contaminado, no caso de mãe infectada. De sua vez, a falta de cuidado de certas mães é alarmante, ou por serem desinformadas, ou negligentes, ou adolescentes de gravidez não planejada, ou usuárias de drogas. Muitas, mesmo orientadas, não adquirem a medicação recomendada, ou, se a buscam, acabam por não usá-la. Aquela especialista revela ter havido um caso em que a mãe soropositiva contaminou o nenê ao dar-lhe de mamar no peito. Isto, certamente, por lhe haver faltado conhecimento. A classe médica alega que não há como obrigar as pacientes a realizarem o teste anti-HIV, com o agravante de que, conforme a denúncia, os convênios não cobrirem essa medida adicional. Os Planos negam, mas o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo, Arlindo de Almeida, chega a admitir isso ao declarar que se existe alguma empresa de medicina de grupo que esteja restringindo os testes, então ela é burra. Porque gastará mais, lá adiante. No caso de Londrina (ponto central das reportagens), não se pode é deixar de levar em conta a palavra de quem age diretamente no processo, como a citada infectologista, que é docente da área de moléstias infecto-contagiosas do Hospital Universitário e coordenadora do ambulatório de AIDS Pediátrico do Hospital das Clínicas, que são unidades hospitalares vinculadas à Universidade Estadual de Londrina. O que se depreende desses lamentáveis acontecimentos é que um maior zelo pela delicada questão da infecção de bebês deixa de ocorrer por interesses econômicos, por negligência das pacientes e, em muitos casos, por falta de conselho do médico. Isto num momento em que a medicina chegou a tão elevado nível de tecnologia.





