No mundo são 34 milhões de enfermos de Aids, sendo que 24 milhões deles vivem na África subsahariana. É um dado assustador e preocupante, considerando que, além da doença, vêm as consequências sociais, tais como os órfãos. Só na África, onde está a maior parte dos aidéticos, são 12,5 milhões de órfãos (no Brasil cerca de 30 mil), muitos deles de pai e mãe. Grande parte destes aidéticos é vítima de tabus, ignorância, modelos econômicos de exclusão e no caso das mulheres, também do machismo.
Os tabus e a ignorância impedem o debate sobre o tema. Nos casos das doenças epidêmicas, são quase sempre culpados um povo, uma raça, uma religião, um sexo (quase sempre mulher) ou algum comportamento, e sempre vindos de fora. Por exemplo, antes que se pensasse na sua origem africana, os EUA exigiram a prova de HIV para dar visto de entrada aos haitianos. Posteriormente, os culpados foram os africanos e os homossexuais.
Com o ''novo'' modelo econômico instalado (globalização) no mundo, aumentou a exclusão social, agravando ainda mais a situação dos trabalhadores e, entre estes, principalmente as mulheres.
O machismo (fundado numa cultura universal) impõe à mulher um sofrimento cotidiano de violência física e psicológica, indiferença na família e no Estado, silêncio, exclusões e culpabilidade. São suplícios infringidos por uma cultura, com raízes seculares que lhe nega a igualdade de direitos e que legitima a apropriação violenta de seus corpos para benefícios dos homens com fins econômicos e políticos. Essa situação coloca a mulher numa situação de inferioridade para enfrentar a epidemia de Aids, tanto é que os números têm demonstrado um aumento do número de mulheres portadoras de HIV, na grande maioria adquirida por relação sexual com seu companheiro e em alguns casos como vítimas de violência sexual.
A Aids é considerada uma doença ''democrática'' no sentido de não escolher, ou predispor, determinada classe social por isso tem tido mais atenção no mundo, tanto é que para este ano, o Banco Mundial destinou US$ 1 bilhão para 99 projetos ligados à doença. Esses projetos, porém, não atendem democraticamente a população do mundo, pois os moradores dos países pobres, mais atingidos pela doença, não têm acesso ao atendimento médico/farmacêutico.
Mesmo tanto tempo depois (20 anos) da descoberta do vírus da Aids, a falta de conhecimentos continua sendo o principal obstáculo ao combate à epidemia. Muitos (cerca de 25%), segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), nos países em desenvolvimento acham que a Aids não é fatal e até um terço das mulheres não conhecem meios para prevenirem-se da doença. Segundo esses estudos, a proporção de mulheres que usam preservativos é muito baixa (1% na África, 3% na Ásia e 4% na América Latina). Além de exporem-se, colocam em risco a gestação e o recém-nascido.
Segundo a Fundação Nacional da Saúde (Funasa), a Aids apresentou de 1980 a 1997, um crescimento acelerado (incidência de 14,8 casos/100.000). De 1997 para cá tem apresentado uma diminuição na velocidade de crescimento da epidemia (incidência). E no período de 1995 a 1999, também apresentou uma redução de 50% na letalidade. Enquanto o número de casos de Aids estaciona ou diminui em alguns segmentos da população, cresce entre as mulheres não só no número de casos, mas também de mortes sendo as principais vítimas as casadas.
Para enfrentar a expansão desta epidemia, é necessária ação diversa, ou de maior amplitude, da que vem sendo desenvolvida até agora. Um exemplo é romper o tabu e a ignorância, trazendo a Aids do campo da esfera privada, das ''doenças vergonhosas e preconceituosas'', daquelas que não se fala, para o debate público desenvolvendo ações educativas e culturais nas escolas e nos meios de comunicação para crianças e adolescentes.
Combate à discriminação, à violência física, psicológica, sexual, etc. com punição e trazendo as mulheres para as tomadas de decisões, em todos os níveis de governo. Criação de serviços específicos de atendimento à mulher com priorização de atendimento das populações de maior vulnerabilidade, como as trabalhadoras do sexo, as usuárias de droga e aquelas excluídas das informações e vitimizadas pelo machismo.
DR. ROSINHA é pediatra, sanitarista e deputado federal do PT-PR

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