Os dados constantes no último relatório da ONU, apresentado pelo Programa das Nações Unidas contra a Aids assustam pelo aumento de novas infecções pelo HIV, pelo número de jovens e mulheres infectados, pela situação dos países em desenvolvimento, onde vivem 95% dos 35 milhões de portadores do vírus. Choca quando mostra que as crianças estão sendo infectadas por sua mãe e que, em alguns países da África mais de 50% das mulheres grávidas têm o vírus.
A Aids se alastra como praga e nenhuma família está livre de ter um membro infectado. Mas, apesar de algumas tentativas, como a de gravar o 1º de dezembro como o Dia Internacional de Combate Contra a Aids, poucos são os que já conseguiram curar-se da doença do preconceito para aceitar a Aids como uma doença da qual ninguém está imune. E pelo preconceito dos portadores do HIV são mortos socialmente muito antes de morrerem fisicamente. Porque são esses segregados, tal como o foram, há dois mil anos, os portadores de lepra.
E a sociedade discriminadora tem medo de aproximar-se de uma pessoa aidética. Evitam-na e se pudessem, com certeza, a colocariam em campos de concentração. Têm medo até de estender-lhe a mão, e a seus filhos ensinam a evitá-la para que não se contaminem. E a morte dos aidéticos vem sendo decretada continuamente pela sociedade hipócrita. E não existe pior morte que a social. Que exclusão pelo preconceito.
Não podemos esconder a cabeça na areia, como a avestruz, e dizer polidamente que estamos curados dessa feia ferida da sociedade. É mentira! Que digam os portadores da Aids.
Nesse Dia Internacional de Combate Contra a Aids precisamos combatê-la sim, mas se não incluirmos o combate contra o preconceito, de nada vale, porque continuaremos a matar os milhões de infectados por antecipação. Vamos continuar segregando-os, tirando-lhes o emprego e o direito de conviverem dentro da sociedade, usufruindo o que, mal ou bem, lhes asseguram os direitos humanos.
Entre as cartas que tenho recebido de pessoas portadoras do HIV, esta tocou-me fundo e, reproduzindo-a, talvez possa contribuir para combater a doença do preconceito: ‘‘Já não sei se falo ou se me calo. Já não sei mais a quem falar e o que também falar. Chorar! Também se chora de alegria, mas quase sempre chorar é o transbordar de uma agonia. Se me calo vem o desespero, se falo vem então o desprezo. O sofrimento é difícil, pode até elevar a alma de alguns, mas sem a solidariedade pode ser um fracasso também. De uma alegria todos podem até invejar, mas de uma dor quase ninguém quer compartilhar. No silêncio do meu dia, no meu interior, em corpo e alma, me envolvo nos mais profundo sentimento. Quero pensar no amor, quero vê-lo acontecer... Impossível! Me tira, ó Deus, desta agonia. Não me deixe perecer. Já que não posso falar, já que não sei a quem falar e o que falar, mesmo que fosse a um amigo, então a Vós, meu Deus, eu me dirijo: Meu Deus, meu Deus, sei que não vais me abandonar! Mas, sou eu quem tem medo de me afastar! O desânimo me persegue, mas sei que por onde ando, Tu, ó Deus, me segue. Dra. Isabel, espero que esta carta escrita à senhora também não seja em vão, porque sabe da minha vida, da minha luta e do meu coração e também da grande discriminação que sofrem os portadores de Aids. Já que não sei mais o que falar, pois ninguém me dá atenção, então lhe peço que me ajude a entregar tudo a Deus em forma de oração’’.
- ISABEL KUGLER MENDES é advogada em Curitiba

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