Há anos, meu saudoso pai, Robert Prochet, escreveu um artigo publicado na Folha, chamando a atenção para a falta de uma política econômica suficientemente nítida, a ponto de indicar claramente os rumos a seguir por alguns abnegados que ainda acreditavam que o País era realmente viável e que estariam dispostos a emprestar a sua inteligência e a investir seu capital em atividades produtivas.
Agora, mais um pacote econômico, para gáudio de uma verdadeira legião de analistas, economistas ou não, que durante vários dias farão eruditas demonstrações de seu senso crítico e de sua elevada competência sobre o assunto.
O próximo passo será uma enxurrada de editoriais de imprensa, pronunciamentos políticos contra e a favor e as indefectíveis mesas redondas na televisão, com a participação de empresários, banqueiros e políticos a desafiarem seus mornos pontos de vista, em amena e respeitosa divergência, para ao final, os telespectadores que se mantiverem acordados cheguem a triste constatação de que somente perderam suas preciosas horas de sono. Aqueles pobres homens que ainda não têm uma opinião formada continuarão sem a mesma, um pouco mais confusos, por não saberem quem está com a razão, o que está certo e o que está errado.
Assim, para não aumentarmos a poluição intelectual que irá assolar o País, não pretendemos desembrulhar o pacote nesse artigo, porém, alertar para o que reserva o futuro ao empresariado e a sociedade em geral.
Não podemos continuar a administrar nosso País ao sabor das emergências que vão surgindo, pois seria comparável a escorar uma construção prestes a ruir, esquecendo-se o mestre de obras que os esforços anormais a que será submetido aquele ponto serão transferidos para outro, que necessitará de nova escora, ou novo pacote, se gostarem da analogia.
Deixando de lado conceitos e considerações genéricas, vejamos o que a conjuntura empresarial brasileira tem a revelar e que possa servir de projeto dos dirigentes de nossas empresas e da grande massa trabalhadora, que depende de seus acertos, por ser a primeira vítima de seus desacertos.
Há meses, em face de uma infeliz combinação de eventos por demais conhecidos, ficou claro que o constante e generoso fluxo de dólares para o País sofreria uma angustiante solução de continuidade, o que nos levaria de forma inapelável a recorrermos ao FMI, não obstante as habituais negativas do governo, em nome de sua estratégica e em razão das eleições que se achavam próximas. Diante disso, uma substancial, persistente e incômoda elevação das taxas de juros internas deveriam ser esperadas de forma a possibilitar ao governo a captação de recursos junto ao mercado financeiro.
A ortodoxa visão monetarista dos técnicos do FMI, e a sua falta de sensibilidade política, até mesmo por deformidade profissional, era o ingrediente que estava faltando para a vertiginosa queda no volume das operações mercantis, fenômeno vulgarmente conhecido por recessão ou por crise.
Daqui para frente, investimentos equivocados e uma administração inteiramente em oposição a um mínimo de austeridade que a situação esta a exigir, levarão inúmeras empresas a um desmedido endividamento (?) que certamente parecerá solução, mas que os levará ao encontro do colapso financeiro.
O empresário, como fonte de decisão mais significativa do investimento, dele há de se esperar, nesse momento, uma atuação absolutamente profissional, além de atributos que possam reunir uma mentalidade arejada, imaginação, autoconfiança, independência e, muito em especial na conjuntura atual em constante e insegura mutação, um fina sensibilidade que o permita interpretar corretamente os fenômenos presentes e antever os futuros. Isso a despeito da espessa camada cinzenta que insiste em encobrir o horizonte.
Todas as crises que já vivenciei pessoalmente, e aquelas que tomei conhecimento por estudos e pesquisas, levaram-me a concluir que a Nação é eterna e certamente sobreviverá às dificuldades pelo que vem passando, mas também é certa que com ela sobreviverão somente os mais capazes, ficando os demais em meio ao entulho que restará no dia em que a comunidade nacional chegar ao final do tenebroso túnel em que encontra.
- RICARDO PROCHET é graduado e pós-graduado em Administração pela FGV e professor universitário em Londrina

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