Não há dúvida que os políticos são aquela espé cie da fauna hu mana que, junta mente com os religiosos, os propagandistas e os vendedores, mais desenvolveu a capacidade de investir na credulidade e na desinformação de homens e mulheres para alcançar seus objetivos. De fato os políticos parecem superar de longe os psicólogos no entendimento das necessidades de cada indivíduo. E pode-se dizer, sem susto de errar, que políticos são peritos em manipular carências, aspirações, sonhos e esperanças, elementos que contam tanto ou mais para se chegar ao poder do que aqueles materiais, como recursos financeiros, partidos bem estruturados e apoios fortes de entidades ou grupos sociais.
Complemente-se isso com o pensamento de Hegel, segundo o qual o homem precisa de um chefe, e se entenderá melhor o vasto e fértil terreno da psicologia coletiva onde os políticos semeiam sua retórica, aram seus projetos de poder e colhem os louros da vitória.
Depois da eleição, quando já é tarde para arrependimentos, o povo, tão zeloso de suas prerrogativas democráticas, crente de que é ele quem manda, começa a perceber que a teoria na prática é outra. E para provar essas observações feitas cuidadosamente no plano teórico, vou agora comprová-las através de casos concretos, o que, aliás, faz parte do método científico. Tomarei, então, como exemplo, o PT, o maior partido de oposição que alcançou nas últimas eleições municipais significativas vitórias.
Como o espaço é pequeno, apresentarei poucos casos, mas será imprescindível em primeiro lugar citar a Prefeitura de São Paulo, a mais importante do País. Nesta prefeitura foi instalada, pelo voto popular, uma mulher. E pode-se dizer que, por ser mulher e fazer parte do PT, Marta Suplicy atraiu a simpatia e as esperanças dos eleitores, imbuídos que estavam de um moralismo político que os fez rejeitar outro candidato identificado com a corrupção.
No poder, o que fez a prefeita? Deu umas pinceladas de tinta num prédio público para simbolizar sua intenção de revitalizar o centro velho de São Paulo, que até hoje não foi revitalizado; aumentou o preço dos ônibus; travou a CPI do Lixo que antes seu partido queria levar a efeito, uma vez que sua campanha recebeu vultosa ajuda de empresas de limpeza pública; pagou mais caro pelo leite em pó integral, produto distribuído pelo Programa Leve-Leite, criado pelo ex-prefeito Paulo Maluf; capitaneou o boicote de prefeituras do PT ao programa do governo federal Bolsa-Escola, antes tão badalado por seu partido, e que destina de R$ 15 a R$ 45 a famílias pobres com filhos matriculados na escola.
O boicote se deu porque a prefeita quis que do cartão magnético que os pobres usam para sacar o dinheiro do banco, constasse o logotipo do PT ao lado do logotipo do governo federal. Como isso não é possível, ela se recusou a repassar o dinheiro, alegando que era pouco. Marta também tenta copiar o que já fazia a prefeitura de Nova York e outras prefeituras do Brasil, colocando os sem-teto em hotéis, panacéia que ainda lhe dará muita dor de cabeça. Mas, justiça seja feita, a prefeita petista não abre mão de uma intensa atividade: continua a frequentar os salões da alta burguesia, classe da qual faz parte.
Em Londrina, a segunda cidade em importância no Paraná, o prefeito do PT Nedson Micheleti, em sete meses de governo, conseguiu levar a cabo dois projetos: 1) Aumentou o preço do ônibus; 2) Esvaziou o Lago Igapó II, com o objetivo de recuperar uma pequena ponte. A ponte ainda não foi recuperada e a vasta extensão de água empoçada promete, no calor que se aproxima, desencadear a maior epidemia de dengue jamais sofrida pela cidade.
Enquanto isso, o PT, a CUT e o MST ergueram suas bandeiras vermelhas contra a venda da Copel, em Curitiba, mas silenciaram com relação à venda da Sercomtel, em Londrina, conforme desejava o prefeito num desses arroubos liberais frustrado por um plebiscito que resultou num não às suas intenções. Ah, esses políticos!


- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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