Água morro acima, ovo Serra abaixo
Água morro acima, ovo Serra abaixo
Ricardo Prochet
Muito embora o nosso presidente da República, com seu altíssimo percentual de rejeição tenha ido pessoalmente a televisão apelar pela calma dos cidadãos em protestos de atirar ovos nos políticos, eu estou achando lindíssimo, vista que a prática é bastante comum nos países onde a democracia se faz presente de forma mais intensa, e a julgar a qualidade da maior parte dos políticos brasileiros tenho pensado seriamente em investir minha parca poupança em uma granja nas cercanias de Londrina, visando municiar os necessários protestos locais.
Os agredidos imediatamente chamam os agressores de covardes e fascistas, sem se preocuparem com os reais e graves motivos que os levaram a vias de fato, correndo sério risco de prisão ou ainda pior de uma represália pelos truculentos seguranças, conforme mostrado pela imprensa.
O último dos primeiros ovos atirados contra o ministro José Serra, por um estudante de 19 anos faz-me crer que a juventude a cada dia aumenta sua participação política, coisa que já havíamos desacostumado a ver nos anos que sucederam a ditadura militar. Por falar em ditadura militar, durante a mesma, qualquer protesto de oposição era punido com enormes cacetetes, quando não por tiros de fuzil e jamais com inofensivos lançamentos de ovos conforme rege a prática atual, dessa forma, o governo ainda está em vantagem se considerarmos as forças e tipos de armamento disponíveis para cada lado.
Não sei o que pensou o rapaz que planejou minuciosamente o certeiro arremesso do ovo ao ilustre ministro, pois, ninguém a ele perguntou, no entanto, a julgar a situação precária em que se encontra a saúde do povo brasileiro, não é necessário muito esforço para entender o que se passou pela cabeça do menino. Senão vejamos:
A saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Esta frase, cunhada na atual Constituição Brasileira pode ser considerada como a representação de uma das maiores conquistas da sociedade brasileira no campo das políticas sociais. Mas por que, somente em 1988 este direito foi conquistado? Por que a saúde deve ser direito de todos? Por que o Estado tem que suprir seus cidadãos com assistência à saúde? E, mais ainda, por que isto não está acontecendo no Brasil?
Impostos foram introduzidos para ajudar a resolução do problema da saúde, afinal, o governo é expert em privatizar o lucro e sociabilizar o prejuízo. A CPMF não existia. Foi criado para atender à sa© úde do brasileiro. Mas a saúde do brasileiro continua péssima e a CPMF (imposto sobre as movimentações financeiras das pessoas nos bancos) teve sua alíquota aumentada.
Apesar dos esforços do ministro José Serra para modernizar e dinamizar a área de sa© úde, a antiga e persistente escassez de dinheiro público para atender ao social, especificamente à saúde do brasileiro, continua frustrando esse intento. Os hospitais públicos, com raras exceções, estão mal equipados e atendem precariamente uma multidão muito superior à sua capacidade. Médicos da melhor qualidade, selecionados em concursos públicos, desdobram-se nesse atendimento, pouco conseguindo devido à falta de meios.
O princípio da prestação de assistência aos menos favorecidos, pelo Estado, é o da solidariedade. É como se a sociedade fosse uma grande família onde todos colaboram mutuamente e quem pode mais ajuda a quem pode menos. É fácil identificar este princípio numa das formas de assistência mais comuns do Estado: a Previdência Social. Este sistema é organizado em nome da solidariedade social, ou seja, os jovens aparecem contribuindo para a aposentadoria dos velhos, para o tratamento dos doentes, os empregados para os desempregados, os ativos para os inativos e assim por diante, muito embora simples, isso tudo não consegue funcionar em nosso país por conta da péssima administração do dinheiro que pertence a essa mesma sociedade solidária.
O Ministério da Saúde vem enfrentando sucessivas crises e o financiamento do setor, ainda dependente dos recursos da previdência, sofre com os sucessivos cortes. O gasto per capita com saúde no Brasil é um dos menores do mundo (menos de US$ 50 por ano) e vem apresentando considerável declínio nos últimos anos, projetando breve falência do sistema.
A saúde do brasileiro vai mal, e aliado a isso, um sem-número de indicadores sociais coloca o Brasil numa das mais vergonhosas posições no cenário mundial. Ocupamos há vários anos o posto de número 1 do mundo em pior distribuição de renda, ou seja, o fosso entre os muito ricos e os muito pobres é cada dia maior. Convivemos com doenças há muito erradicadas em outras nações, temos uma taxa de analfabetismo altíssima (cerca de 28 milhões de pessoas não sabem ler), mais de dois terços da população não dispõem de renda suficiente para assegurar o acesso a condições dignas de vida. Sessenta em cada mil crianças que nascem, morrem antes de completar um ano de vida e perto de trinta e dois milhões de brasileiros passam fome.
Por conta disso, senhores políticos, tratem de se proteger, pois com certeza, minha granja será o grande negócio do próximo século no Brasil da juventude que a cada dia que passa fica mais politizada e disposta a não permitir que o mal e as injustiças sociais continuem a prosperar.
- RICARDO PROCHET é administrador de Empresas, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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