Agropecuária do Paraná em perigo - Ágide Meneguette
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terça-feira, 25 de maio de 1999
Ágide Meneguette 
A produção agropecuária paranaense é crescente e com sucessivos recordes nas safras de soja. À primeira vista isso parece promissor. Em meu entendimento, os números podem nos levar a uma visão distorcida de nosso futuro. Se nada for feito agora, nossa agropecuária e, sobretudo, nossa estrutura fundiária, correm sérios perigos. As razões para esse meu temor são concretas, bastando uma olhada para o que vem acontecendo no mundo e em nosso País.
O sonho do Brasil celeiro do mundo é algo que está cada vez mais distante. O desenvolvimento agropecuário em várias partes do mundo vem transformando grandes importadores em geradores de excedentes, como a China, a Índia, o Paquistão, além dos aumentos de produção em tradicionais exportadores, como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina.
O aumento da produção mundial de soja, trigo, milho - produtos importantes para a economia do Paraná - está superando a demanda, estacionada não apenas pela crise dos países asiáticos, mas também pelo esforço produtivo interno de países importadores.
Para se ter idéia do que significa essa situação, basta mencionar os estoques atuais de 244 milhões de toneladas de grãos e oleaginosas, contra os 186 milhões de toneladas de 1996. A diferença de 31% dá bem a medida do que tem sido o comportamento do mercado. O aumento de produção e dos estoques mundiais não poderiam ter outra consequência senão a queda generalizada de preços. Para avaliar o comportamento internacional daqueles produtos que interessam ao Paraná, basta verificar o que ocorreu nos últimos anos. O preço internacional histórico do milho, em torno de US$ 110,00 a tonelada, despencou para os atuais US$ 85,70; uma queda de 22%.
O preço da soja é o mais baixo dos últimos 25 anos e não parece ser uma questão meramente conjuntural. Em abril de 1995 a tonelada da soja estava cotada em US$ 211,50, contra os US$ 177,30 atuais. Isto é, uma queda de 16%. No caso do trigo, a queda do preço foi de 26% (de US$ 129 a tonelada em abril de 1995 para US$ 96,04 em abril deste ano). Ignoramos os valores de 1996 - US$ 179,30 - porque foi um ano atípico de preços muito acima da média histórica, como decorrência de sucessivos desastres climáticos.
Aumento de oferta, redução de demanda e declínio de preços são uma tendência, e não uma conjuntura desfavorável. A mudança cambial, que evitou um desastre maior para a agropecuária este ano, mascara esta queda, mas não evita a realidade de uma renda menor quando formos colher a próxima safra.
Estão ocorrendo também mudanças no mercado interno, alterando a geografia da produção agrícola brasileira, ameaçando a hegemonia do Paraná na liderança de vários produtos. Basta olhar o desenvolvimento do Centro/Oeste e Norte do País. Nestas regiões está crescendo a produção de soja, estimulada pelas novas vias de escoamento, conjugando ferrovias, hidrovias e portos de grande calado, além da proximidade com os países de destino.
Imaginem toda a região do Cerrado, com 2 milhões de quilômetros quadrados, equivale a 10 Paranás, produzindo soja e exportando pelos rios amazônicos Madeira, Tapajós, Araguaia, Tocantins, pelo Sistema Paraguai-Paraná, utilizando-se de um sistema de transporte intermodal - incluindo portos - mais barato. É uma região de grandes propriedades, com uma escala de produção favorável, o que significa custos de produção menores.
Por uma questão agronômica, a produção de soja deve ser alternada com um outro produto, como o trigo e especialmente o milho. Atrás do milho vai a avicultura, a suinocultura, a bovinocultura de leite, a renda e os empregos que essas atividades geram. Além de competir com a nova fronteira agrícola, com os países desenvolvidos, o Paraná enfrenta ainda os vizinhos do Mercosul, que produzem exatamente o que nós produzimos.
Pois bem, o desafio de competir em todas essas frentes vem acrescido de custos maiores, seja em razão da escala - 85% das propriedades no Paraná têm menos que 50 hectares - ou da predominância do transporte rodoviário e das tarifas portuárias. A propósito, como os fretes do transporte de soja nas safras ditam os preços de todos outros fretes, aumentar as tarifas de pedágio, como pretende o governo do Estado, significa criar um embaraço a mais.
Resumindo a ópera: se o Paraná desejar manter a sua estrutura fundiária - da qual nos orgulhamos, pelo acesso democrático à terra que isso representa - terá que mudar urgentemente os seus padrões de produção, buscando tecnologias e organizações que permitam suportar a competição internacional - que se dá tanto no mercado externo como aqui dentro de nosso País.
As fronteiras estão sendo paulatinamente ruídas pelas novas regras da Organização Mundial do Comércio. O Brasil, contudo, lançou-se com açodamento ao livre mercado, baixando irresponsavelmente sua guarda, reduzindo taxas de importações e se omitindo na imposição de tarifas compensatórias contra abusos de países exportadores no uso de subsídios ou de barreiras alfandegárias e não-alfandegárias em países importadores, a exemplo do que os Estados Unidos fazem com nosso suco de laranja, açúcar, álcool, tabaco, café e outros produtos importantes na nossa pauta de comércio exterior.
É dentro deste quadro que o nosso Estado precisa ajustar a sua agropecuária, mesmo que o governo federal mantenha a sua posição omissa. É urgente buscar alternativas tecnológicas e de organização, baixar o custo Paraná, recuperar e ampliar a infra-estrutura, fomentar a modernização do campo. Inserir a produção do Estado em padrões de qualidade e preço internacionais.
Para que isso ocorra, os produtores precisam conscientizar-se da necessidade de buscar esses novos padrões e o Governo atualizar a sua máquina de apoio, alforriando-se de conceitos ultrapassados e do corporativismo que cega as instituições no alcance de um novo modelo de ação.
O nosso secretário da Agricultura, Antônio Poloni, está perfeitamente afinado como esses novos tempos. A temeridade, contudo, é que as autoridades e instituições ainda não conseguiram assimilar essa situação e a demora de uma ação para mudar o curso pode comprometer definitivamente a agropecuária paranaense, refletindo sobremaneira no crescimento da economia do Paraná. Está na hora de se atualizarem, e com urgência.
- ÁGIDE MENEGUETTE é presidente da Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná)


