Neste mês de novembro, o FAO patrocinou uma reunião mundial sobre segurança alimentar. Com os estoques de grãos atingindo os níveis mais baixos da história, as previsões de Malthus voltam à tona.
Um dos mitos mais persistentes na era moderna é que estamos acabando com nosso potencial produtor de alimentos. Todavia, a evolução da agricultura mundial tem categoricamente desmentido as profecias de Malthus e de seus seguidores.
A população mundial saltou de 2,5 bilhões de pessoas, em 1950, para, 5,3 bilhões em 1990, um aumento superior a 100%. Este crescimento ocorreu principalmente nos países em desenvolvimento, onde a população passou de 1,7 bilhão para 4,1 bilhões de pessoas.
A produção de alimentos não somente acompanhou essa explosão demográfica, como aumentou a disponibilidade per capita de alimentos. A de grãos, por exemplo, passou de 631 milhões de toneladas, em 1950 para 1,78 bilhão em 1990, um aumento de 182%.
Todavia, nas duas últimas décadas o crescimento global da produção de alimentos vem diminuindo seu ritmo de crescimento. Caiu de 3% ao ano na década de 60, para 2,3% nos anos 70 e para 2% entre 1980 e 1982.
Essa diminuição na expansão, associada à queda dos estoques mundiais, tem despertado a preocupação de especialistas internacionais. Suas conclusões são bastante conflitantes, podendo ser resumidas em duas correntes.
A primeira, com análise de Lester Brown, do Worldwatch Institute de Nova York, e de Edward Schuh, do Hubert Humphrey Institute of Public Affairs, da Universidade de Minesota, aponta para um mundo à beira de uma crise de alimentos, com o esgotamento das tecnologias disponíveis, agravado por um crescimento da população em ritmo maior do que o da produção de alimentos.
Pior ainda, está praticamente se esgotando o processo de obtenção de novas variedades que caracterizaram a revolução verde e que consistia na seleção e cruzamento de variedades mais produtivas.
A conclusão destes pesquisadores é que não será possível, através desses processos, continuar indefinidamente a aumentar a produtividade das espécies existentes. Como subsídio para suas previsões, tanto Schuh, como Lester Brown consideram a população crescendo a uma taxa de 2% ao ano. Um acréscimo provável na renda per capita dos países em desenvolvimento da ordem de 3% a 5% resultaria em expansão da demanda de 4% a 6% ao ano.
Entretanto, estudos da Food & Agriculture Organization (FAO) e do Hudson Institute apresentam previsões menos dramáticas para a agricultura. Para o FAO, não existe problema estrutural de oferta. A diminuição do ritmo de crescimento da produção seria uma reação natural dos principais exportadores de grãos à queda dos preços e às mudanças, introduzidas nas políticas agrícolas e comerciais de vários países que reduziram os subsídios à exportação, bem como outros incentivos à produção. A afirmativa baseia-se principalmente no fato de que haveria uma quantidade significativa de terra disponível para ser incorporada ao processo produtivo.
O Hudson Institute trabalha com uma hipótese de crescimento populacional mais conservadora, de 1,5% ao ano. Com previsões de crescimento de renda per capita também menores, uma expansão da produção mundial da ordem de 1,8% a 2% ao ano, no período de 1990 a 2010, seria suficiente para satisfazer a demanda afetiva sem provocar elevação substancial de preços.
O estudo da FAO procura também amenizar a hipótese da existência de um limite tecnológico, mostrando que os investimentos em biotecnologia começam a dar frutos. O Hudson Institute complementa, dizendo que não existe limite exato de aumento da produtividade de uma variedade ou espécie. O limite teórico para produção de alimentos tem sido estimado, há décadas, em 15/22 toneladas por hectare. No entanto, a média anual de produção de arroz/ha é de 3,5 toneladas e a produtividade mundial média de milho de 2,5 toneladas. Os melhores produtores chineses de arroz estão conseguindo médias de 6 toneladas/ha, enquanto no Brasil a média é de 3,5 toneladas/ha. Os melhores produtores norte-americanos de milho já estão colhendo cerca de 12 toneladas/ha, quando a média norte-americana é de 8 toneladas/ha ou quase a metade do seu potencial.
O estudo da FAO conclui afirmando que, caso não ocorra nenhum fenômeno climático que afete a produção dos maiores produtores de grãos, os estoques, mundiais devem voltar a alcançar níveis adequados nos próximos cinco anos, em função do efeito que os preços mais altos produziram no mercado, estimulando a oferta e contendo a demanda.
Embora divergentes, ambas as correntes apontam para um ponto importante de inflexão na trajetória da agricultura mundial. Este ponto é caracterizado pelo fato de que os recursos naturais tendem a escassear em função do crescimento da população. Se quisermos reverter este quadro, fazendo com que as inovações científicas e tecnológicas continuem a postergar a materialização das profecias catastróficas de Malthus, deveremos fortalecer e reordenar a pesquisa agropecuária.
- ALFREDO NAVARRO DE ANDRADE é engenheiro agrônomo, PhD.

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