Agricultura, questão de projeto de governo
Mudar o ministro da Agricultura pode resultar em algumas alterações na política agrícola, porém nada substancial se não houver um programa conjunto e consistente do Governo para o setor. E esse programa não existe. Bons ministros já passaram por essa Pasta, e cada qual a seu tempo fez o que lhe estava ao alcance, mas o Ministério da Agricultura, como os demais, é dependente do super-ministério que administra o dinheiro, e este é o da Fazenda. Já para fazer estragos o ministro Roberto Rodrigues teve autonomia, como aconteceu no caso da febre aftosa artificial imposta ao Paraná, no ano passado, e cujos reflexos danosos ainda persistem. No Brasil, o Governo Federal nunca contemplou a agricultura e por extensão a pecuária com um projeto de vanguarda, e se avanços vieram acontecendo foi por mérito da própria classe produtora e do idealismo dos pesquisadores, e aí até por força da natureza oficial do sistema entra a participação governamental. De quem se vai, como o ministro ainda no poder mas que já está demissionário, torna-se ocioso fazer avaliações, mas importa muito que se redirecione o enfoque para a esfera estratégica do Governo na expectativa de que desperte para a importância econômica e político-social da atividade rural. Que é geradora e multiplicadora de riquezas, não havendo outra de igual porte que a substitua. A indústria é, em grande volume, dependente de matérias-primas produzidas no campo, e se o produtor rural não a municiar, muitos segmentos do setor deixarão de existir. Por si mesma, a agropecuária e seus desdobramentos pertinentes (transporte, armazenamento, comercialização, insumos, maquinaria, tecnologia de apoio) é grande empregadora, abastecedora tributária, exporadora e, acima de tudo, produtora do bem maior que é o alimento. Mas, com tudo isto, o Governo não tem um projeto agrícola e nem um projeto agrário dignos do nome. O que os produtores rurais conseguem é produto de muita luta, que tem de se repetir a cada safra. Se o Ministério da Agricultura e Pecuária tem alegado não dispor dos instrumentos necessários para atender convenientemente o setor, deve ser ao menos um sinalizador e um formulador de projetos para os que têm a chave do cofre, para o presidente da República e para os Parlamentos. Mas para tal, o titular precisa ter competência e liderança. Justamente para converter-se no porta-voz do agronegócio junto aos demais Poderes e impor seus argumentos. Que devem ser os mesmos que emergem das bases do campo e que resultem na sensibilização especialmente do Executivo e do Legislativo para a adoção de um plano agrícola governamental sólido e duradouro, sem paliativos e sem meias medidas. No Brasil, quase tudo está ainda por fazer, mas o grande começo deve ser um projeto sustentado para a produção rural, que o mais virá a reboque.





