Não havia necessidade de um gesto extremo para expressar as dificuldades enfrentadas pela agricultura neste momento; ou melhor, nesses últimos anos de populismo em que mostrar coisas negativas do campo tem mídia garantida. Se a dívida teria levado um agricultor a praticar suicídio no Paraná, adversidades semelhantes levaram centenas de tratores e colheitadeiras ao centro de Rondonópolis (MT). E Faep e Ocepar chegaram a recorrer aos prefeitos para pressionar o governo, uma vez que os municípios são os grandes prejudicados com a miséria no campo. O cenário da semana foi este: apelos dramáticos no Paraná, manifestação gigante em Mato Gross e até um suicídio. Em esfera mais elevada, no agronegócio, outro indicador da crise: o fracasso do Agrishow, em Ribeirão Preto.
  São dias tensos. Nessas horas, infelizmente, só não se consegue ouvir os políticos. E o ministro da Agricultura, então, parece blindado porque as dificuldades não chegam até ele. Incrível como o governo não se mexe; como é indiferente. Tem gente perguntando cadê o sr. Roberto Rodrigues? Tudo isso para não falar da política agrícola como um todo. Se na vertente econômica o governo não governa - basta observar a falta de logística, por exemplo -, no lado agrário ele se mostra autoritário: o Ibama converteu-se no órgão oficial do terror verde, para usar a frase do professor Cláudio de Moura Castro, educador e economista.
  Mas quando o problema são os juros, a solução para renegociação da dívida está na lei. O Conselho Monetário Nacional (CMN) deu todo aval para que os bancos fiquem à vontade para manipular dados sobre números. A classe produtora rural tem que conhecer profundamente quais são os seus direitos: tanto no que tange à legal revisão das dívidas securitizadas, quanto aos direitos que eles podem recuperar nos 20 anos (recuperar o ‘‘compulsório rural’’ - aquilo que os produtores pagaram para os bancos a mais do que determinava a Lei Agrícola), e usar este valor, que não é pouco, para honrar compromissos. Estudos demonstram que se o produtor buscar o passado dos últimos 20 anos, e encontrar as contas, os 30 bilhões de dívidas desaparecem após a devida compensação entre produtores e bancos. Quem sustenta é o advogado Péricles Araújo Gracindo de Oliveira, de Maringá, especialista em Crédito Rural.
Duas causas são fundamentais para entender o que está ocorrendo: 1) falta de visão estratégica da política agrícola, que não fez um adequado plano de subsídio; 2) a política de controle de aumento do dólar adotada pelo governo, com compras excessivas, inclusive, de dólar norte-americano, para forçar a queda do preço desta moeda no mercado interno, que colaborou diretamente para a queda do preço dos commodities exportáveis. Tudo, como se vê, passa pelo governo.

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