Agricultura: passado e presente - Carlos Augusto Pereira Motta
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de dezembro de 1998
Carlos Augusto Pereira Motta 
A agricultura tem passado por mudanças frequentes, provocadas por fatores de natureza política, social, econômica ou tecnológica decorrentes das tendências do desenvolvimento da sociedade como um todo. Nas sociedades economicamente desenvolvidas e que atingiram elevado grau de industrialização, o processo de urbanização e consequente redução da mão-de-obra ativa no meio rural, exigiu estratégias para solucionar o problema de abastecimento dos centros urbanos que visavam produzir mais com menor força-de-trabalho numa área de exploração agrícola muitas vezes estabilizada.
Uma nova relação entre os fatores de produção terra/capital/trabalho foi preponderante. Neste sentido, buscou-se por um lado aumentar a eficiência da força de trabalho escassa, através da mecanização intensiva e de tecnologia poupadora de mão-de-obra e por outro lado, maximizar, a qualquer custo, a produtividade das unidades produtivas. Nessas economias desenvolvidas, o fator capital não foi restritivo.
Em países de economia menos desenvolvida e de menor estrutura interna de industrialização, a busca de desenvolvimento através do espelhismo ou reprodução amparada no modelo capitalista dos países desenvolvidos provocou distorções importantes nos processos internos de crescimento.
A restrição maior estando concentrada no fator capital, a adoção de padrões de desenvolvimento do capitalismo similares aos das economias denominadas desenvolvidas ou altamente industrializadas, estimulou a importação ou geração endógena de tecnologias que requerem insumos e processos de elevada dependência ao uso intensivo de capital. Estas por sua vez são, numa relação capital-trabalho, poupadoras de mão-de-obra. Nesse sentido reduziram a geração de emprego, numa estrutura que deveria privilegiar, ao menos na fase que se encontrava, uma política de absorção intensiva de mão-de-obra.
No processo de transferência de tecnologia há que se considerar dois critérios: a eficácia, de um lado, e a eficiência, de outro. Normalmente, a concentração tem sido na eficiência, ou seja, na capacidade interna de absorver as tecnologias. Mas a eficácia deveria preceder a eficiência, pois é mais importante, uma vez que a tecnologia reflete opções sócio-econômicas e ambientais do seu local de origem e, a eficácia mede a adequação dessas opções ao ambiente que se quer transferir. Em outras palavras, a importação da tecnologia deveria vir, antes de tudo, de países com condições sócio-econômicas e ambientais semelhantes.
As principais consequências da reprodução capitalista nos países subdesenvolvidos foram a concentração da terra e da riqueza, o êxodo rural massivo, a superexploração da força-de-trabalho, o desemprego estrutural, a elevação do custo de produção com reflexos na taxa inflacionária, o crescente endividamento externo e, entre outros, a elevação do desnível relativo de crescimento entre as economias desenvolvidas e aquelas dependentes.
Na tentativa de superar os entraves econômicos, os países menos desenvolvidos têm progressivamente superexplorado seus recursos naturais através de uma agricultura intensiva, muitas vezes de forma inadequada, utilizando tecnologias oriundas de países e regiões ecologicamente diferentes, o que tem trazido consequências ambientais desastrosas.
O despertar, hoje, de uma consciência de autopreservação da sociedade ameaçada pelos descaminhos dos modelos de desenvolvimento até então adotados é extremamente importante, sendo fundamental definir a missão reservada à agricultura, dentro de uma nova estratégia de desenvolvimento que não contemple somente algumas facetas da sociedade, mas todos os seus componentes de maneira integrada.
Neste momento em que se internacionaliza uma nova forma de convívio entre as nações e se instala uma nova ordem econômica mundial, com mudanças rápidas e profundas nas economias fechadas, com a eliminação de barreiras comerciais pela criação dos mercados comuns, torna-se imperativo interromper a inércia dos modelos estabelecidos e buscar-se alternativas estratégicas diante da realidade instalada, principalmente nos países do Terceiro Mundo.
É necessário, portanto, buscar-se uma agricultura auto-sustentada através da valorização dos recursos naturais, com utilização de tecnologia ajustada às condições ecológicas e sócio-econômicas locais, orientada no sentido de preservar e não degradar os seus recursos e o ecossistema.
Neste sentido, é preciso buscar a redução do custo de produção como forma de obter rentabilidade e não produtividade a qualquer custo; aumentar a eficácia do padrão tecnológico empregado, evitando usos perdulários de insumos, reduzindo as perdas controláveis, promovendo a reciclagem e/ou a máxima utilização de produtos secundários ou subprodutos; incentivar a regionalização das atividades com níveis tecnológicos aplicáveis como forma de obter vantagens comparativas no custo de produção, competitividade nos preços e qualidade do produto; valorizar a produção agrícola, trocando produtos e processos com bens de essencialidade inquestionável. É necessária a organização dos países produtores agrícolas e a valorização de seus produtos para as trocas internacionais.
- CARLOS AUGUSTO PEREIRA MOTTA é pesquisador da área de propagação vegetal em Londrina


