Pero Vaz de Caminha, no primeiro documento escrito da história brasileira já proclamava que ‘‘a terra descoberta, em se plantando tudo dᒒ. Era a força da terra brasílica impressionando o arguto observador da esquadra cabralina e registrada na sua carta ao rei de Portugal.
Quase 500 anos se passaram. No último ano agrícola registramos o recorde histórico com a produção de 80 milhões de grãos colhidos. Importante, mas insuficiente. Basta lembrar que, no mesmo período, a produção da Argentina foi de 63 milhões de toneladas. Num período de cinco anos, a produção agrícola argentina teve um crescimento real de 55%, enquanto em igual período a produção agrícola brasileira cresceu apenas 6%. Em números efetivos: a Argentina, na safra 93/94, produzia 40 milhões de toneladas, passando para 63 milhões no período 97/98; o Brasil no mesmo período cresceu 75 milhões para 80 milhões de toneladas.
O confronto desses dados precisa nos remeter a uma séria reflexão. E ela, no primeiro momento, nos mostra que a agricultura brasileira ainda é encarada por muitos tecnocratas como uma atividade marginal. O esforço dos anônimos agricultores e dos competentes e dedicados técnicos da Embrapa, instituição modelar, na priorização da atividade agrícola como um núcleo fundamental na economia brasileira é ignorada por muitos. E o País precisa ter na sua agricultura um dos suportes do seu desenvolvimento.
Deveríamos hoje, em vez de 80 milhões de toneladas de grãos, ter, historicamente, uma produção nunca inferior a 150 ou mais milhões de toneladas produzindo anualmente. Empregos gerados em escala crescente, desafogo da explosiva questão urbana, alimentos abundantes, riqueza agregada e distribuída vertical e horizontalmente. E se ainda temos aquele nível produtivo o mérito maior é do lavrador anônimo que não esmorece, não se entrega aos trancos e barrancos, até porque é sua vida, teima em continuar produzindo.
Na Argentina, os bancos correm atrás dos agricultores para oferecer crédito. Com isso investe-se em tecnologia. Fábricas de tratores, colheitadeiras, fertilizantes, agroquímicos expandem-se estruturando uma contínua geração de emprego. Em 1997, as exportações de produtos agrícolas da Argentina para o Brasil atingiram a soma de US$ 2,7 bilhões. Já o Brasil exportou para aquele mercado apenas US$ 550 milhões. Só nesse item um ‘‘déficit’’ de mais de US$ 2 milhões.
Não bastam discursos, nem intenções, precisa-se de ação e coragem no enfrentamento dessa questão. Começando pelo Ministério da Agricultura. Sem improvisações, mas com competência, fazendo-o um órgão ativo, despido de manipulações políticas, coordenando e comandando a grande revolução dos alimentos que a agricultura pode proporcionar ao Brasil.
Já temos uma agricultura moderna no Centro-Sul, produtiva e competitiva. O Paraná é um exemplo. Até em regiões mais atrasadas a viabilidade técnica e econômica do setor é indiscutível. Por exemplo, a extensa faixa de massapé do Nordeste, uma das terras mais férteis do mundo, é nove vezes maior que a área agricultável do Japão. As novas fronteiras agrícolas a partir do Cerrado, seria outro exemplo. É a forma mais barata de gerar empregos, acabando com a miséria que se agiganta por todos os quadrantes do território nacional. Uma agricultura forte e próspera cria demanda por bens e serviços nas cidades, expande o mercado interno e gera um efeito multiplicador em toda a economia.
O exemplo que vem da Argentina deveria servir de alerta para o governo brasileiro: a agricultura brasileira tem a maior reserva de terras agricultáveis do mundo (sem nenhuma cascata), por que não aproveitá-las em benefício da Nação?
- HÉLIO DUQUE é economista, ex-deputado e ex-presidente do PSDB/PR

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