Agradável reversão de expectativas - Miguel Ignatios
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de outubro de 1997
Miguel Ignatios 
Aos poucos parece que a sociedade brasileira vai amadurecendo. Apesar das óbvias dificuldades vividas por todos, dos mais abastados até os mais pobres - valores que há muito tempo estavam engavetados (honestidade, transparência, fidelidade, dentre outros) vão sendo resgatados pelas gerações mais jovens. E isso é bom para todos nós.
Recente pesquisa, feita pela agência Standard Ogilvy & Mather, intitulada Listoning, Post, ouviu 800 pessoas residentes em São Paulo, Rio, Curitiba, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife sobre os valores que os brasileiros mais prezam. Os resultados são no mínimo, surpreendentes: 60% dos entrevistados, de todas as faixas etárias e de renda, colocaram a família, o trabalho, o caráter, a honestidade e a dignidade como as coisas mais importantes.
A resposta à questão - quais são os valores pelos quais o sr. acha que uma nação deveria lutar - foi ainda mais surpreendente ao resgatar o ideário da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) e acrescentar-lhes a Justiça.
Curiosamente, os 400 chefes de família e as 400 donas de casa das classes A, B, C e D, ouvidos pela enquete, identificaram, com incrível lucidez, os quatro grandes males que atormentam o brasileiro, em ordem decrescente: corrupção (84% das respostas), violência 77%, passividade e acomodação, 62% e impunidade 57%.
Outro dado curioso: ainda de deixar o país para procurar melhores oportunidades no Exterior parece ter passado. Nada menos do que 76% dos entrevistados disseram que não gostariam de ter nascido em outro país.
Por último, 49% das pessoas ouvidas, afirmaram acreditar firmemente em valores éticos, tradicionais como dignidade, honestidade, amizade e religiosidade, e 21% informaram estar reformulando seus valores básicos. Por sua vez, os pessimistas não passam dos 29% divididos entre os que estão cada vez mais descrentes de valores morais 15%) e os que não ligam para eles (14%).
Em poucas palavras: o brasileiro está voltando a ter orgulho do seu País. Mas - o que é ainda melhor e até certo ponto surpreendente - esse orgulho não o impede de ver com clareza os enormes obstáculos que ainda precisamos vencer para chegar lá. Já não é mais aquele surrado e vazio ufanismo de antanho.
Em termos práticos, se a tendência detectada pela pesquisa se mantiver daqui para frente, isso significa que a chamada lei de Gerson (aquela segundo a qual se deve, sempre que for possível, levar vantagem em tudo) está com os dias contados. Quanto mais cedo ela for posta em desuso pela sociedade, menor será a distância a nos separar das nações mais civilizadas.
Só falta agora avisar os nossos políticos de que a tal lei está morrendo. Afinal, em 1998, os brasileiros vão eleger seu presidente, parte de seus senadores e a totalidade dos seus deputados federais, governadores e deputados estaduais. Se tivermos sorte, talvez eles também comecem a trocar a demagogia habitual por propostas realmente novas, sérias e decentes.


