Há 44 anos, no dia 24 de agosto de 1954, o Brasil foi, literalmente, acordado com um tiro. A bala que, disparada pelo próprio presidente, tirou a vida do sr. Getúlio Vargas, naquela dramática manhã, constituiu o ponto culminante de um assustador agosto, que havia começado com o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda (e que acabou matando o major Vaz, da Aeronáutica, que protegia Lacerda) e que ameaçava jogar o país numa guerra civil. Com sua morte, Getúlio Vargas reverteu a situação, transformou os que tentavam tirá-lo do Catete e da presidência em vilões e, como assinalou em sua Carta-Testamento, deixou a vida para entrar da História. E marcou também, de modo tenebroso, aquele mês.
Com efeito, a partir de então, a frágil democracia brasileira vivia cada agosto como se fosse uma antevéspera da tragédia. Para garantir ao oitavo mês do ano esta triste marca, 7 anos depois, no dia 25 de agosto, o presidente
Jânio Quadros, eleito pouco menos de um ano antes com esmagadora maioria, renunciava ao cargo, ia embora e deixava outra crise que, de novo, por pouco não levou o Brasil à uma conflagração interna. A solução para a crise de 61 só aconteceu em setembro, após negociações daquele que iria se revelar o grande articulador político do país, ao longo dos anos seguintes - Tancredo Neves.
Agosto acabou sendo poupado de se perpetuar na memória nacional como o mês mais terrível do calendário porque o golpe militar de 64 acabou acontecendo antes - para uns, em 31 de março, para outros, em 1º de abril. Entretanto, na sequência dos anos, e ao longo do duro período da ditadura, sempre que agosto chegava havia uma espécie de anticlímax, criava-se um ambiente de expectativa e temor. Políticos não dormiam sossegados ao longo do mês, a imprensa detectava sinais assustadores em cada fato.
Esta situação, na verdade, era o reflexo da própria fragilidade das instituições políticas e, sem dúvida, como se pode constatar hoje, com a perspectiva dos fatos subsequentes, representava um reflexo do Brasil com um povo que tinha pouca experiência democrática, herdeiro de séculos de dominação colonial, seguida de quase 70 anos de monarquia, mais uma República do tipo coronelista, tudo resultando quase que na idéia de que a própria liberdade era mais um presente dos governantes que uma conquista dos cidadãos.
Foi necessário um terrível período totalitário para que os brasileiros começassem a ter consciência de sua condição. A grande virada que os eleitores começaram a realizar, a partir principalmente de 1974, derrotando a ditadura em seu próprio jogo, e que culminou com o fim do regime ditatorial, sem guerra civil, sem sangue, mas também dentro das próprias regras dos tiranos (na eleição indireta para a presidência de Tancredo Neves), redefiniu o Brasil e serviu para dar, talvez pela primeira vez ao longo da História, um sentimento de auto-estima e respeito próprio que faltava.
A redemocratização, conquistada e não outorgada, abriu caminhos. O sofrimento dos anos Sarney (que quase mataram a esperança da população), as atribulações do período Collor e as incertezas do governo Itamar Franco deram a base para que, finalmente, o brasileiro vivesse plenamente seu papel como agente da História.
A segurança consequente do sucesso do plano de estabilização, iniciado por Itamar e consolidado por Fernando Henrique, deve-se em grande parte à conscientização do povo e representa um marco definitivo na vida deste povo. Com isto, agosto, agora, é um mês como os outros, e os eventos trágicos ocorridos há 44 ou 37 anos são lembrados como fatos históricos, lições para um povo a caminho de sua maioridade.

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