Agora virei réu
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de abril de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Com 70 anos de idade, o bispo francês Geraldo Verdier trabalha há três décadas na diocese de Guajará-Mirim, em plena floresta amazônica, em Rondônia. Neste tempo todo, ele presenciou uma verdadeira explosão populacional na região. Gente de vários estados, principalmente do Paraná. Dom Geraldo já foi ameaçado de morte e hoje teme pela vida de dois colaboradores de sua diocese, um padre e um médico, que já foram jurados por defenderem colonos em situações de conflito. De passagem por Londrina e Maringá, ele recebeu a FOLHA para esta entrevista.
A explosão populacional que aconteceu na Amazônia, a partir de 1970, foi boa ou ruim para a região?
A primeira vez que estive na Amazônia foi em 1966. Naquela época não tinha estradas. Os únicos moradores eram os índios e os ribeirinhos. Para se ter uma idéia, Rondônia tinha 100 mil habitantes e atualmente tem 1,5 milhão. Muitos migrantes se deram bem. Porém, outros não resistiram à malária ou não conseguiram se estabalecer e, até hoje, buscam seu pedaço de terra. Outro problema é a corrupção. Tem gente que utilizou de meios ilegais e atualmente possui 90 mil hectares de terra. Esse é um drama que nós vivemos. Uma coisa terrível, que fez com que eu fosse ameaçado de morte no passado. Hoje são colaboradores meus que enfrentam essa dificuldade por defenderem pessoas que foram expulsas de suas propriedades.
Quem briga por terras?
O problema é complexo. Índios foram tirados de suas terras pela própria Funai e foram viver ''soltos'' na natureza. Agora, querem voltar para as suas áreas, as quais estão ocupadas por colonos. Existem também os quilombolas, que estão às margens do Rio Guaporé desde que seus antepassados fugiram das senzalas. Sempre tem alguém querendo expulsá-los de suas terras. Por fim, existem os camponeses sem-terra. Muitos são paranaenses. Acontecem verdadeiros massacres quando eles ocupam a área de algum poderoso. Há pouco mais de 10 anos, 13 camponeses foram fuzilados pela polícia.
Como é o trabalho da igreja neste contexto?
A igreja está presente, denunciando. Muitas vezes ajudamos pessoas injustiçadas a recuperar as suas terras. Certa vez, um deputado inventou de tomar as terras de um povoado quilombola. Ele indenizou o pessoal com uma quantia irrisória e colocou fogo em tudo no dia seguinte. Eu denunciei os fatos e os quilombolas recuperaram as suas terras. Dias depois, um garimpeiro chegou em mim e disse que havia sido contratado por aquele deputado para me matar. Eu o questionei porque não havia feito o trabalho e ele explicou que um segundo deputado convenceu o contratante a desistir da idéia, pois não era um bom negócio assassinar um bispo francês, a repercussão seria muito grande.
Por que o senhor está sendo processado por policiais militares de Rondônia?
Em 2004, aconteceram dois casos de abuso policial. No primeiro deles, um jovem envolveu-se em um acidente de trânsito com um PM que estava fora do horário de serviço. O policial chamou os seus colegas, que vieram com a viatura e começaram a espancar o rapaz. Fui chamado pela população. Encontrei o rapaz preso, todo ensanguentado. Imediatamente o levei para o hospital. Ele se salvou por muito pouco. Menos de um mês depois, prenderam um pequeno traficante, que não reagiu. Mesmo assim o espancaram. Foi outro que escapou da morte por pouco. Eu fui à imprensa. Mandei cartas para o governador e para o comandante da PM, o qual admitiu os abusos, afastou os policiais do serviço e os mandou para julgamento no Tribunal Militar. No entanto, os policiais foram absolvidos por falta de provas. Agora, os sete acusados ''elegeram'' um deles para me processar. O PM pede indenização por danos materiais e morais, o valor total é de R$ 11 mil. No dia 15 de maio serei julgado. Agora virei réu.


