Agora os multadores da dengue
Se o mosquito da dengue é perigoso, a partir da próxima semana um novo agravante surgirá em Londrina com a disseminação de 185 agentes municipais com o poder de, também, multar quem não cuidar de seu ambiente residencial ou comercial e mantiver águas paradas, onde o transmissor se aloja e prolifera. Ao invés de intensificar campanhas educativas, entram os multadores, que já anunciam doloridas picadas: multa de R$ 50 para cada irregularidade encontrada. Se é preciso bater forte contra o mosquito, que não se desvie dele a bordoada. O caminho não é o das multas mas do esclarecimento e da conscientização dos cidadãos. Nunca se saberá, doravante, quais os critérios desses multadores se por encontrarem vasos e outros recipientes com água exposta, ou pela identificação da presença do mosquito, pois é isto que os agentes também apontam, quando o localizam. Certo é que a população precisa cooperar, sem negligência, mas a Secretaria Municipal de Saúde tem de envolvê-la no processo, não ameaçá-la e agredi-la. Não se pode usar armas punidoras quando o caminho é o da mobilização consciente da comunidade. O recurso da punição ocorreu também com a implantação dos agentes municipais de trânsito, que raramente são vistos trabalhando na orientação do tráfego mas, indiretamente, são vistos por meio dos boletos de multas. ''Só quando ameaçamos mexer no bolso das pessoas elas se conscientizam'', afirma o titular da Secretaria de Saúde, Silvio Fernandes. Se o caminho tem de ser este, melhor é encerrar a difusão das práticas de cidadania e usar só as punidoras, e assim o mundo vai regredindo, até à barbárie. Um secretário municipal não pode ser um tirano, a ditar conceitos e impor regimes de força. Os governos não têm feito muita coisa mais do que ''mexer no bolso'' das pessoas. Primeiro, em 2002 ainda no caso da dengue criou-se lei municipal permitindo as autuações (uma lei de ''mexer no bolso'' do cidadão), depois passou-se a apontar esse instrumento legal para dar validade às ações punitivas. Há formas de endurecer, mas pelo caminho da intensa presença desses agentes nos domicílios e isto toda a comunidade aceita. Se o índice de infestação do mosquito cresceu em Londrina, nos últimos anos, foi com certeza por falta de ação mais adequada da vigilância sanitária. Poderá ocorrer, doravante, de os fiscais irem entrando já prontos para multar e não em busca de conscientizar cada morador e assim ir eliminando o mal. Como, com quase certeza, o proprietário autuado não será consultado nem informado previamente, começará a ocorrer a surpresa da chegada dos talões de multa, por via das contas da Sanepar como se anunciou e do correio. Outro risco é de as pessoas dificultarem o acesso desses agentes, como forma de livrar-se de eventual multa, e assim o invento da punição se converterá num favorecedor da dengue. Não está afastada a possibilidade de o agente multar por não encontrar ninguém em casa. A população, com toda a certeza, não deseja ter o domicílio infestado de mosquitos e contrair a doença, por isso será necessária orientação sistemática, de forma a eliminar os focos de águas estagnadas nos domicílios, e os mosquitos. A Secretaria começa a agir por um método de ameaça, e duvida-se que isto vá produzir resultados melhores que uma boa campanha educativa, com o envolvimento de toda a comunidade. Isto, naturalmente, exige competência de gestão, e dá trabalho. Chega de o cidadão ficar constantemente na mira de punições do poder público!





