O Brasil já é um grande cassino e agora o Governo federal deseja mais uma modalidade de jogo: a Timemania, que, se aprovada pelo Congresso, estará nas lotéricas dentro de seis meses, destinada a ‘‘sanear as dívidas tributárias dos clubes de futebol’’. Medida Provisória acaba de ser editada nesse sentido e entrará logo em votação. Com cartelas de R$ 2, a Timemania espera recolher R$ 500 milhões/ano, e dessa quantia destinará R$ 125 milhões para aquele fim, R$ 230 milhões para os prêmios e os R$ 145 milhões restantes para fim incerto e não sabido, podendo-se supor que seja a farra pública. Quanto à cota dos clubes, 10% irão para a Série C, 25% para a Série B e 65% para a Série A – esta a que deve mais, ou exatamente R$ 3,7 bilhões. O cometimento de mais esse saque é por todas as formas condenável e constitui mais uma disfarçada forma de tributação sobre o povo, que não percebe que este será mais um sugadouro de dinheiro do meio circulante, portanto descapitalização. Essa proposta precisa ser rejeitada pelos congressistas. Os clubes que encontrem meios de pagar o que devem, ou outros setores – como o empresarial – também terão direito a benesse idêntica. Na verdade o Governo nem visa socorrer e sanear os clubes inadimplentes e sim socorrer a si mesmo, pela receita que obterá por via dos apostadores. Porque, pelo cálculo, já se viu que receberá os haveres, junto aos clubes, e abocanhará mais aqueles R$ 145 milhões, tudo sugado do bolso do povo. Já se imagina que, terminado o débito dos devedores, a Timemania irá continuar, a menos que não emplaque como atração de aposta. Este novo invento não tem outro nome senão imposto, que os brasileiros pagarão nos guichês das lotéricas e que melhor serviria se destinado ao leite das crianças. Incrível que nem os parlamentares, nem os analistas econômicos percebam que a descomunal fortuna que o Governo arrecada com seu cassino é uma tributação, que oferece a contrapartida de um prêmio pequeno se medido pelo volume da receita. Quanto ao restante – que segundo o que está escrito no verso dos boletos de aposta destina-se a fins esportivos e assistenciais – nunca se viu prestação pública de contas a respeito. Veja-se o cronograma do cassino governamental: segunda-feira banca a Lotofácil; terça-feira, Quina e Dupla Sena; quarta-feira, Loteria Federal, Mega Sena e Lotomania; quinta-feira, de novo Quina; sexta-feira, outra vez Dupla Sena; sábado, novamente Lotomania, Loteria Federal, Quina e Mega Sena; e domingo, Loteria Esportiva. Ao menos essas lotos poderiam ser estadualizadas para descentralização de renda, se é que não existe esperança de extingüi-las. Junta-se a isso o cassino televisivo de Sílvio Santos, mais as tômbolas beneficentes, o jogo carteado dos mini-cassinos nada clandestinos que proliferam no Brasil inteiro, e o popular jogo-do-bicho, este já inserido na categoria de folclore – uma contravenção penal de baixos teores que deixou de ser pecaminosa face à consagração da prática pelo uso. Agora a máquina sugadora quer a Timemania para induzir o povo a apostar ainda mais, assim deixando de comprar o equivalente a bens necessários e robustecer a bruaca do Tesouro.

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