Embora apregoado como cultura mas sendo antes de tudo competição – em muitos casos violenta – o boxe de forma nenhuma se enquadra como atividade cultural. E, aderindo a essa prática perigosa, o Brasil já está colocando crianças no ringue, à moda do que foi lançado na Tailândia. A Rede Globo mostrou domingo que, incentivados por treinadores aficcionados e pelos próprios pais, meninos e meninas de 8 anos estão sendo ensinados a soquear o adversário e a dar pontapés, portando avançando também para a modalidade do vale-tudo. Está acontecendo em Porto Alegre. Uma barbaridade que precisa ser proibida.
  O que estarrece é que os familiares apoiam e declaram que querem ver os filhos campeões. Estes, inocentes mas lançados na arena, naturalmente também se entusiasmam. Uma treinador e defensor da participação de crianças nesse ‘‘esporte’’ disse que não há risco de elas se machucarem, e mal havia acabado de falar as câmeras captaram um chute que feriu o rosto de um disputante. De pronto, a justificava dele foi que isso aconteceu porque os minilutadores se empolgaram diante das luzes da televisão. Imagine-se então como irão se empolgar na disputa de um título, quando o número de holofotes é maior! É algo inconcebível o que estão fazendo com esses pequenos, quando tanto se fala em defesa da criança e do adolescente e buscando tirá-los da miséria, da delinqüência e da violência nas ruas. Pelo que se viu, crianças agora são lançadas nos ringues igualmente perigosos, como se fossem galos nas rinhas, para deleite dos pais
e treinadores. É só exibição, justificou um deles, mas uma criança entrevistada declarou que estavam mesmo era competindo e vivendo esse clima. Uma menina começou a chorar ao entrar no ringue, parecendo que ia forçada.
  Este novo invento é ainda mais perverso na Tailândia, onde os contendores mirins lutam boxe e vale-tudo desde 5 anos de idade. E com ou sem capacete. Viu-se pela TV que eles se chutam e se esbofeteiam. Uma crueldade, para satisfazer o sadismo de espectadores adultos, que fazem – caso daquele país – inclusive apostas em dinheiro.
  No Brasil o boxe só é permitido para maiores de 14 anos, mas na capital gaúcha essa norma foi quebrada. Este é um ‘‘esporte de colisão’’ – por isso não deveria ser permitido – declarou um ortopedista ouvido pela reportagem. Ele citou vários males e seqüelas que essa prática pode gerar nos lutadores de tenra idade, que não têm estrutura para tais competições. E, citando como exemplo, disse que a associação nacional dos ortopedistas nos Estados Unidos condena o boxe nessa idade.
  As crianças já sofrem tanto no mundo, vítimas de fome, abandono, exploração sexual, balas perdidas, assassinato, e agora os mais velhos as estão usando para espetáculos de violência em ringues de boxe. E o Brasil, pródigo em imitar coisas ruins que chegam de todas as partes do mundo, prontamente adere. Um descalabro!

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