Foi bom saber que o PMDB não lançará candidato à disputa presidencial e que o partido, pela maioria dos convencionais, decidiu apoiar a reeleição de Fernando Henrique. Já se sabe que não o fez por patriotismo mas por causa das dissidências internas e por óbvia conveniência, desfalcado que está de alguém de estatura para concorrer e ganhar. Homens muito bons não frequentam partidos políticos, e se não ingressam neles são inelegíveis. No Brasil temos mais bons futebolistas que bons homens públicos.
A decisão peemedebista assegura uma campanha eleitoral tranquila, com todos os indicativos de que FHC será reeleito. Bom que isso vá acontecer. Não necessariamente pelo homem - sem que esta afirmativa busque desaboná-lo - mas pela paz nacional. As sempre existentes alas contrariadas, sedentas de poder - e tão somente de poder - já estão se estrebuchando, mas teremos harmonia nesta campanha. E se reeleger o presidente será da vontade geral, não haverá perdedores. Assim funcionam as democracias políticas, e se elas não são perfeitas, não se encontrou ainda sistema melhor para substituí-las. Pior se o governante nos fosse imposto. Já vivemos isto por duas longas décadas e não gostamos.
Aquela expectativa de um 98 meio perdido, por causa da disputa eleitoral, já se dissipou com a decisão do PMDB. Porque as coisas agora já ficam mais definidas. Os concorrentes que aí se apresentam já não sensibilizam os brasileiros nem irão mobilizá-los a se aventurarem em experimentos. Eles não trazem mensagem nova. Seus discursos já conhecemos. Não que as vozes discordantes devam calar-se; é que elas já não têm muitos ouvintes.
As virtudes e os propósitos de FHC, ao menos, nós já conhecemos. E conhecemos dele também alguns temores, algumas hesitações e algumas teimosias, mas já deu para sentir que é um governante sério, que dá para confiar nele. Como um dia a nação confiou em Getúlio e em Juscelino. Aqueles foram tempos de grandes avanços.
Embora os brasileiros acreditem mais no Real que o criador dele, o próprio FHC - porque se ele acreditasse liberaria sem medo a baixa dos juros e não temeria tanto o consumismo daí decorrente (bendito consumismo!) - é bom termos um homem da estatura de Fernando Henrique como presidente. Ele orgulha os brasileiros, aqui e fora. Isto é importante nesta era de globalização e de interdependência entre as nações.
Agora, com uma maior segurança de reeleger-se, FHC deslancha. Faltava-lhe esta abertura, que o PMDB ora lhe proporciona. Partidos políticos às vezes cometem coisas acertadas. O preço disto, não me perguntem, mas ainda sairá mais barato diante do que viria pela frente.
Agora o presidente e seus ministros e toda a equipe governamental não pensam final de mandato, mas pensam continuidade. Finais de governos têm sido períodos negros, de reinauguração de obras, de obras de fachada, de muitos favorecimentos e concessões e sobretudo de muito gasto e endividamentos que comprometem as administrações seguintes. Pode-se dizer que FHC já começou um novo governo, de mais cinco anos. A nação vai seguir-lhe os passos, na mesma sintonia, certamente passando a cobrar-lhe mais. A comunidade econômica internacional olha o Brasil, agora, ainda com maior segurança; investidores já chegam mais seguros, e quem ainda vacilava sabe que pode vir; o empresariado nacional respira mais aliviado, apesar da desestabilização em que ainda se encontra, ironicamente provocada pela calmaria de uma economia não inflacionária, com direito a recessão inclusive.
Fernando Henrique já é uma figura familiar, aceitável em nosso convívio televisivo diário. Não é discursivo, nem arrogante, não destila iras contra seus adversários. O povo gosta dele. Com FHC, sabemos que o rumo que a nação irá seguir é mais ou menos este que estamos seguindo. Com esperanças, naturalmente, de que haja nestes próximos cinco anos alguns fundamentais realinhamentos: como permitir a baixa dos juros bancários e maior circulação da moeda através do consumismo, segredo do desenvolvimento. Hoje apenas 17% do dinheiro brasileiro circula. O mais está virtualmente dentro dos bancos, nas mãos do mesmo governo, que é o grande captador junto aos próprios bancos, a juros altíssimos; e nas mãos dos fundos de pensões. Só não está nas mãos dos empresários, estes que giram as rodas do desenvolvimento, que dão empregos e tudo arriscam.
Só faltará ao presidente confiar no seu Real. Porque ele teme juros baixos, teme corrida ao consumo (que bom seria essa corrida, pois salvaria a todos: indústria, comércio, serviços, o próprio governo, por extensão os empregos); teme inflação, teme a estabilidade do Real.
É bom para um povo ter um Fernando Henrique presidente. E, diga-se, uma primeira-dama como D. Ruth. Porque já tivemos aquela que mandava dinheiro da LBA para a mãe, e uma outra que enchia de madames o avião presidencial, em Brasília, para ir ao Rio tomar chá.
Agora só falta FHC confiar no Real. É o único brasileiro que ainda não está confiando.

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