Primeiro um prefeito aterrou o lago com detritos, cometendo o mais abominável crime ecológico que a Londrina pós-colonização já conheceu, agora o prefeito atual quer fazer construções em cima da área aterrada. Um crime a justificar outro, ademais oferecendo riscos futuros, de inimagináveis dimensões.
Para os leitores e ambientalistas de fora informamos que se trata de parte do Lago Igapó-2, que compõe extensa área inundada dentro da cidade, obra do então prefeito Antonio Fernandes Sobrinho, um governante de extrema sensibilidade que se preocupava não só com os problemas sociais mas também com o bem-estar espiritual das pessoas. Daí a inspiração para dotar Londrina de um lago artificial, eis que os ingleses - não se sabe por que cargas d’água - optaram por construir a cidade afastada de rios.
Essa represa, o mais poético e repousante lugar da cidade, elevou o astral de Londrina.
Inacreditável que aquele setor do lago, um recanto então povoado de águas e aguapés, peixes e animais de diferentes espécies, inclusive esporádicas garças brancas pouco vistas por aqui, tenha sido utilizado para depósito de lixo. Toneladas e toneladas de restos de construção foram depositadas ali por construtoras, beneficiadas pela autorização do então prefeito ‘‘colega de turma’’. Muitos perguntam: como foi que, na época, ninguém viu?! Incrível, mas ninguém viu mesmo, nem a imprensa. O lugar não era muito povoado e os poucos moradores da área eram pessoas humildes, sem poder político e, aparentemente, sem consciência ecológica. Quando se percebeu, tudo já estava consumado. Foi como se houvéssemos acordado no ‘‘day after’’, perplexos e boquiabertos.
Mas há um jeito de consertar: desaterrando o lago. O que a mente e a mão humanas puderam fazer, podem também desfazer. O prefeito Antonio Belinati não pode cometer um novo crime ecológico sob o pretexto de corrigir outro. Que se chame especialistas para um projeto de remoção daqueles detritos. Onde repô-los, é uma questão que a Prefeitura terá que estudar, mas poderá ser alguma área pedregosa, onde não se fira o meio ambiente.
Uma draga operando dia a dia, em 1 ano ou mais levantará todo aquele monturo. Uma empreitada cara, sem dúvida. O prefeito inimigo do lago poderia, para reparar esse seu delito lesa-natureza, doar 6 meses/draga; as empreiteiras na época beneficiadas doariam 1 mês/draga cada, e o restante teria que ser feito pela Prefeitura. Não importa quanto tempo duraria essa tarefa.
O que não pode é o prefeito Belinati, agora, permitir construções em cima daquela verdadeira ‘‘areia movediça’’. Já há estudos atestando que em cima de entulhos não se pode edificar nada. Para quem não sabe, o prefeito intenta doar aquela área a uma empresa construtora de Londrina (de novo uma construtora!), que implantaria ali algo como edifícios e equipamentos de lazer, e com toda certeza não para uso gratuito da população, já que a iniciativa privada não faz nada de graça. É um projeto nebuloso, ainda desconhecido. O que se sabe é que não trará mais benefícios que a presença das águas.
As vozes que até agora se levantaram contra essa idéia predadora foram da vereadora Elza Correia (aí a sensibilidade feminina!) e de alguns outros cidadãos. Os demais vereadores estão em silenciosa e não explicada conivência.
Se o prefeito não quer destinar verbas para a remoção do aterro, elegendo outras obras que considere prioritárias, então que deixe o lago como está, à espera do tempo. Como a Dinastia Belinati deverá revezar-se no poder, ainda, por uns bons cinquenta anos, algum de seus familiares um dia terá que fazê-lo. Belinati não quererá carregar consigo esse karma... Nem o quererão todos aqueles que contribuiram para o ‘‘afogamento’’ dessas águas, e os que incentivam o projeto que agora se esboça.
Que se manifestem os ambientalistas, que tantos bons serviços têm prestado à causa da consciência ecológica, no Brasil; que se manifestem as autoridades, as lideranças comunitárias, as igrejas, os pastores - que têm muita influência sobre o prefeito Belinati, por conta da esposa evangélica Emília (aí a sensibilidade feminina!); que se manifestem os cidadãos conscientes. Terra para construir coisas em cima é o que não falta, mas mananciais de água, estes são poucos.
Um prefeito é um cidadão que recebeu a dádiva de governar uma comunidade, e essa dádiva não se paga com agressão à natureza, porque ao agredi-la ele agride a si próprio, agride as pessoas, agride a animais e plantas, agride a Providência Divina.

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