Agora é celular de graça para vereadores
Para os vereadores, tudo está contemplado no orçamento e tudo é legal. Porque foram eles mesmos que criaram cada lei. Mas se as mordomias têm esse amparo, não significa que tenham validade moral. Agora os vereadores de Londrina inventaram mais uma para locupletar-se à custa do povo: aprovaram conceder-se um telefone celular cada, mais a cota mensal de R$ 300 para gastar tudo de graça. Dois vereadores ficaram fora, por própria decisão: Roberto Fu e Tercílio Turini. A alegação do presidente da Câmara, Orlando Bonilha, é hilariante: a de que esses telefones são para servir à população, porque ele diz (mas não é preciso acreditar) que é para os pobres que ligam aos vereadores a cobrar. Primeiro, nenhum vereador tem espírito cívico tão grande a ponto de atender chamada do povo a cobrar. Segundo, vereador não fornece seu número de telefone celular para o povão ligar à vontade, e muito menos se for a cobrar. Com o telefone celular gratuito, a partir de abril, espera-se que eles forneçam à seção de Serviços publicada neste Jornal, por exemplo, a relação dos números telefônicos dos 16 contemplados com a nova mordomia. O gasto com o investimento não é uma fortuna: R$ 9.800 com a compra dos aparelhos e mais R$ 4.800 mensais, mas a questão é de decoro e de se ter de ouvir coisas disparatadas que eles dizem, como esta de que é para atender a chamadas do povo a cobrar. No mínimo uma risível anedota. Roberto Fu diz, com razão, que a novidade ''não é muito moral'' e que a comunidade não vai aceitar. Outra interessante declaração do presidente da Casa é que nem lhe passa pela cabeça (palavras dele) a reeleição à presidência, para contestar o que se fala à boca pequena que o benefício do telefone, aos colegas, vise ganhar-lhes o voto. Com toda certeza o povo não crê que isto nem lhe passa pela cabeça. Segundo o diretor da Câmara, Rubens Canizares, a Casa aderiu a um plano da companhia telefônica Sercomtel, que está concedendo bons descontos à clientela no valor do aparelho e do minuto utilizado. Os vereadores apenas aproveitaram o descontão. Tercílio Turini, que não quis entrar no esquema, diz que não gasta muito com telefone (a serviço da função), então a cota individual de R$ 300 é generosa. Há municípios, em países adiantados do mundo civilizado, cujos vereadores nada recebem, por considerar o cargo como honorífico. Há casos também no Brasil e no Paraná. Isto está longe de tornar-se coisa geral e comum, porque também nas grandes democracias existem os abusos de mordomias. Mas numa nação pobre como o Brasil os ganhos dos parlamentares resultam altíssimos, aforam os mil benefícios de que auferem, sem falar dos mensalões e outras ajudas, reveladas ou não. Por isso que tudo o que se adicionar a essa orgia de gastos soa escandaloso. Mais um gol contra da Câmara de Vereadores de Londrina.





