A esperança de moralidade vai se esvaindo quando se vê até grandes cooperativas de produtores de leite cometendo inomináveis delitos contra a saúde pública, como a contaminação do produto por interesse comercial, como aconteceu em Minas Gerais. As acusadas são a Cooperativa Agropecuária do Sudoeste Mineiro (Camil), de Passos, e a Cooperativa dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Coopervale), de Uberaba. Para recuperar leite estragado ou impróprio para o consumo que chegava dos produtores, essas cooperativas adicionavam água oxigenada, soda cáustica, ácido cítrico, citrato de sódio, sal e açúcar.
A Polícia Federal, após receber denúncias, prendeu 27 pessoas, incluindo diretores das cooperativas, funcionários e inclusive dois agentes do Serviço de Inspeção Federal encarregados da fiscalização sanitária. A informação é alarmante, porque segundo a denúncia, o leite contaminado era repassado também à Parmalat, à Calu e à Centenário, que vendiam o produto embalado com suas marcas. Portanto, esse leite prejudicial à saúde ainda está nas prateleiras dos supermercados e outros pontos de vendas de todo o País. O Ministério Público Federal alertou que aquelas substâncias, se adicionadas em desacordo com os parâmetros químicos indicados, ''podem se transformar em poderosos agentes cancerígenos''.
Desalenta saber que cooperativas vinham praticando esse tipo de fraude (confirmadas pela análise do Laboratório Nacional Agropecuário, o Lanagro), porque em princípio elas deveriam estar acima de suspeição, pela condição de agregadoras de produtores e, no geral, organizações tidas como confiáveis. Por momentos, a opinião pública começa a imaginar que não só o leite mas também outros produtos possam ser contaminados por conveniências comerciais e sem preocupação com a saúde pública.
Recentemente foi o episódio das bebidas alcoólicas falsificadas, de renomadas marcas (produzidas à base de álcool automotor, um veneno para o organismo humano) e que eram vendidas a destacados compradores (inocentes ou coniventes), especialmente no Rio de Janeiro e por extensão em todo o Brasil. A quadrilha de falsificadores foi presa, mas ninguém garante que a prática continua em outros pontos. Comprar bebida alcoólica, a partir de então, passa pela desconfiança dos consumidores, mesmo que com rotulagem aparentemente perfeita, com o selo de ''imposto pago'' e informação de procedência, porque tudo pode ser falso, já que todos esses processos passam por mãos de pessoas.
Ademais, estarrece constatar-se, no caso do leite, que dois fiscais da inspeção sanitária estão envolvidos. ''Impossível eles alegarem que não sabiam que o leite estava sendo adulterado'' - declara o delegado Willian Nascimento. Caso de flagrante suborno e de corrupção, também alertando os consumidores de qualquer produto sobre a fragilidade de garantia quanto à fiscalização. Rótulos, carimbos, certificados, entram no rol da desconfiança, neste país onde a moralidade no geral tem baixos teores. Uma triste realidade, mas que não pode deixar de ser dita, até porque os muitos fatos relatados o atestam.

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