Agente da integração - Ruy Martins Altenfelder Silva
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de abril de 1998
Ruy Martins Altenfelder Silva 
O Brasil promoveu, nos últimos dois anos, uma significativa supressão e redução das barreiras tarifárias e não-tarifárias. Esta liberalização, sem precedentes na história nacional, decorre, basicamente, de três fatores: a reforma tarifária unilateral iniciada em 1990, a implementação do Mercosul e os compromissos pertinentes aos acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC). A tarifa média de importação caiu de 52% para 12%. O País já se equipara às nações com menos restrições comerciais, demonstrando clara disposição de se engajar na nova ordem da economia globalizada.
A posição do Brasil, somada à sua nova imagem no Exterior, de nação democrática, economicamente estável e com seriedade de propósitos, reforça sua credibilidade como potência emergente e desperta maior confiança no Mercosul, no qual exerce uma liderança natural. O Tratado de Assunção, visto inicialmente com certa desconfiança, como se fosse uma estratégia de seus signatários para se protegerem da globalização, passa a ser encarado como um estímulo à integração com outros blocos. Até mesmo o renitente ceticismo norte-americano com relação aos propósitos do Brasil e seus parceiros do Cone Sul não resistiu à realidade, constatada in loco pelo presidente Bill Clinton, na visita que fez ao País e à região, no final de 1997. Esta viagem do presidente dos Estados Unidos foi historicamente providencial, pois mudou a visão de seu país com relação ao bloco sul-americano, que passou a ser considerado decisivo para a inserção de seus países na economia global e o sucesso da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Muito antes dos norte-americanos, a União Européia já havia percebido a real natureza e importância do Mercosul, investindo na região e incentivando o intercâmbio, que se materializa em frequentes missões diplomático-empresariais, inclusive com a presença de chefes de Estado e governo e autoridades com poder de decisão. Já em 1992, era firmado acordo entre os dois blocos, estabelecendo intercâmbio de informações, assistência técnica, formação de mão-de-obra e apoio institucional. Além disso, há o Acordo Quadro Inter-Regional, que define a cooperação visando à futura associação político-econômica.
Tudo caminha para uma integração intercontinental, restando estabelecer critérios tarifários equânimes, que ainda esbarram num certo recrudescimento do protecionismo nas nações européias. A questão tarifária, que certamente será equacionada, com a participação indispensável de empresários, trabalhadores e todos os agentes sociais, não será obstáculo à integração do Mercosul com o Nafta, via Alca, e a União Européia. O Cone Sul, nesse contexto, ganha grande importância, pois representará uma interseção dos conjuntos constituídos pelos dois maiores mercados mundiais.
Todos esses fatos, somados à sua liderança no Mercosul, tornam o Brasil protagonista decisivo na nova ordem econômica do planeta. Por isso, é de fundamental importância que sua imagem externa - tradicionalmente ligada a problemas e não a soluções - continue evoluindo positivamente. Não se pode esquecer, contudo, que é no plano interno que se desenha o perfil mais adequado à realidade da Nação, que, enfim, parece ter encontrado o seu caminho.
A nova imagem brasileira - que precisa ser trabalhada no Exterior com o profissionalismo do marketing e da moderna comunicação social - projeta a grandeza de uma nacionalidade fundada na diversidade, no dinamismo e, sobretudo, numa tenaz capacidade de renovar a esperança. Esta virtude tem sido demonstrada por um povo que, emergindo do colonialismo, resistiu ao subdesenvolvimento, aos mais irresponsáveis pacotes econômicos, à camisa de força dos regimes de exceção e a complexas crises políticas.


