Agenda verde
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de janeiro de 1997
Otaviano Canuto 
Nem só de taxa de câmbio dependem as exportações brasileiras. Ainda que aquela taxa seja uma variável-chave nos destinos do comércio exterior brasileiro, não deveria ser a única tecla sobre a qual se bate quando se fala neste assunto.
Tampouco as preocupações sobre o comércio deveriam limitar-se ao custo Brasil, como pretendem os economistas do governo. Mesmo que venha a ocorrer uma recuperação e atualização tecnológica na infra-estrutura de portos, rodovias, energia e telecomunicações, cujo estado precário hoje afeta negativamente as exportações brasileiras, ainda assim a agenda não estará esgotada. Há também uma agenda verde no comércio brasileiro que não poderá ser negligenciada.
A pauta de exportações do Brasil tem um conteúdo significativo de produtos industrializados intensivos em recursos naturais e energia. Entre 1980 e 1995 a participação de produtos semimanufaturados passou de 12% para 20% no valor das exportações. Celulose, alumínio em estado bruto, semimanufaturados de ferro e aço, açúcar cristal, óleo de soja em bruto, couros e peles, ferro gusa e ouro não-monetário são exemplos da expansão em destaque. Mesmo nos produtos classificados como manufaturados, que constituíram 55% das exportações em 1995, temos suco de laranja, papel, laminados planos de ferro e aço e similares entre os líderes nas vendas brasileiras ao exterior. Na verdade, ampliando-se a perspectiva para o grupo de países do Mercosul em seu conjunto, pode-se constatar uma relevância ainda maior das indústrias de processamento de recursos naturais em suas exportações para o resto do mundo.
Ao mesmo tempo em que veio afirmando-se essa tendência, o impacto dos ramos industriais intensivos em recursos naturais sobre o meio ambiente tornou-se um foco de atenção. Os temas de negociação dentro da Organização Internacional do Comércio e outras instituições multilaterais abrangem hoje telecomunicações, informática e... meio ambiente! Quer por razões de consciência ecológica ou de protecionismo das economias avançadas, em nome de uma luta contra o dumping ecológico perpetrado pelas economias semi-industrializadas, o fato é que o cenário está construído para que luzes crescentes sejam lançadas sobre o tema.
A comunidade
internacional está
prioritariamente
voltada para as
questões ambientais
De certa forma, compreende-se até porque esta questão do impacto ambiental, que poderia ser associado à produção das exportações brasileiras, não chegou ainda a entrar em cena com força. A comunidade internacional está prioritariamente voltada para as questões ambientais com repercussão mais ampla, como as eventuais consequências do desmatamento da Amazônia ou os efeitos da difusão do consumo de produtos industriais sobre a camada de ozônio. Nesta linha de raciocínio, pelo fato dos impactos das chamadas indústrias sujas serem mais locais, não mereceriam tanta urgência quanto, por exemplo, o aquecimento global. Isso é verdade, mas há mais elementos em jogo.
A rigor, um aspecto importante tem sido o fato de que, em se tratando de ramos de processamento de recursos naturais, onde ainda há uma concorrência entre economias avançadas e economias como o Brasil, não há hoje diferenças suficientemente significativas para justificar denúncias generalizadas de dumping ecológico. A resposta temporária aos reclamos ambientais dada por produtores industriais concorrentes nos países avançados tem sido razoavelmente copiada pelos exportadores brasileiros e por seus parceiros do Mercosul. Velhas plantas do primeiro mundo puderam introduzir, em maior ou menor grau, as chamadas técnicas end-of-pipe, vale dizer, de tratamento de resíduos ao final do processamento industrial, pelas quais contemplaram parcialmente as demandas por menor dano ambiental. Contudo, por sua própria natureza, a imitação dessas técnicas não vem representando um desafio intransponível para as plantas congêneres na América Latina.
No entanto, alguns fatores estão hoje em curso que nos permitem prever uma mudança neste pano de fundo. A emergência das chamadas tecnologias mais limpas, integradas aos processos, assim como o grau, a essa altura já acelerado, de depreciação das plantas no primeiro mundo, deverão abrir uma oportunidade para revigoramento da competitividade de economias avançadas, através de novos investimentos, pelo menos no tocante a alguns ramos de processamento industrial cujo abandono para a periferia não chegou a ser integral. Caso essa segunda rodada de introdução de tecnologias mais amigáveis com o meio ambiente não venha a ser acompanhada na periferia, não será surpresa se o dumping ecológico entrar na ordem do dia dos foros internacionais. Além disso, há uma convergência de expectativas hoje até mesmo quanto às próprias vantagens de custo destas novas tecnologias.
Parte dessa renovação tecnológica no centro é passível de ser também imitada. Consiste na extensão de princípios contidos no Just in time, no Controle de Qualidade Total e outras técnicas gerenciais cuja introdução pode se dar a contento no parque industrial brasileiro. Há, porém, um conteúdo de investimento fixo em equipamentos e em ativos intangíveis, como treinamento de mão-de-obra, monitoramento de tecnologia, etc., que apontam na direção de um comprometimento de recursos financeiros muito maior do que até agora.
A agenda verde não se reduz hoje à sobrevivência de micos-leões dourados. Caso não haja a devida atenção por parte dos empresários e da política industrial, a descoberta tardia poderá sair muito cara.


