Aftosa: como no tribunal do Santo Ofício
O ministro da Agricultura e Pecuária, Roberto Rodrigues, declara que não dará mais entrevistas sobre a febre aftosa no Paraná. Deve ter jogado isto à conta das atribulações do ano que passou porque no final de 2005 ele declarou que, felizmente, aquele fatídico período de dificuldades na agricultura e na pecuária estava indo embora. Supostamente, no seu entender, as águas do ano velho levam tudo. Por isso não quer mais falar da imaginária aftosa paranaense. Primeiro a semeadura do estrago, no bojo da precipitação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (SEAB) ao levantar a suspeita da aftosa; agora a mudez, que em outras palavras quer dizer omissão e irresponsabilidade. Hoje, são transcorridos 87 dias de procura da aftosa, mas ela ainda não foi localizada. A raça bovina agradece, mas os pecuaristas estão pagando um preço alto e a economia paranaense também. O Estado de São Paulo também recebeu bovinos oriundos de Mato Grosso do Sul, onde foram confirmados focos de aftosa em setembro, mas com SP ninguém mexe. Ali o ministro Rodrigues tem fazenda de gado. Afirma-se que ''não foram encontrados sinais clínicos sugestivos de enfermidade vesicular'' em animais do vizinho Estado, mas a informação que se tem é que os bovinos espalhados em fazendas de São Paulo não foram submetidos a qualquer exame sorológico. No Paraná também não foi encontrada aftosa mas o bloqueio persiste. ''O apego à suspeita fez com que isto se convertesse em fato'', afirma o veterinário Raimundo Tostes, doutor em patologia animal, e acrescenta: ''É como se estivéssemos no Tribunal do Santo Ofício dos tempos da Inquisição, em que o réu é imediatamente condenado, sem direito a defesa. Os exames foram feitos e o Ministério estava decidido de que havia a doença no Paraná. O resultado (entenda-se a danosa consequência) não importava''. De repente também os técnicos da SEAB não querem mais falar do assunto. Faltou, no caso da ficção da aftosa, o empenho do governador Roberto Requião para que esse impasse fosse afastado, afinal ele tem afinidade com o presidente da República. E ademais, o grande prejudicado é o Estado que ele governa. Mas é voz corrente que sua linha ideológica não se afina com as classe empresarial mais proeminente, e aí talvez ele inclua os pecuaristas. Houvesse o governador tomado pulso firme desde o início pois o mal começou na Secretaria da Agricultura de seu Governo hoje essa questão poderia estar solucionada. Por outro lado, foi paradoxal o silêncio de Requião ante as investidas do ministro, porque ele não aprecia Rodrigues (e a recíproca deve ser idêntica), por causa do antagonismo ministerial no caso dos transgênicos. Supostamente, a propalada aversão aos empresários seja maior que a aversão ao ministro e à corrente negativa representada pelo fantasma rondante da aftosa. Pior do que os malefícios de um surto verdadeiro porque este seria curável é essa pestilência anti-Paraná disseminada por instituições governamentais da área e que se apresenta de tão difícil combate.





