Afinal um candidato honesto
O discurso: Sou um candidato com as qualidades e imperfeições de todos os outros, e se for eleito governarei da mesma forma que todos governaram. Não acreditem que cumprirei todas as promessas, nem imaginem que serei um supergovernante e que irei fazer milagres. Não confiem plenamente que estarei imune da corrupção, porque não sei o limite de minha resistência, e minha honestidade ainda não foi testada...
...Estou nesta disputa mais por vaidade pessoal do que por espírito público, mas lhes garanto que irei gostar de realizar obras e inaugurá-las, porque quero ser perpetuado como um bom governante, e ficarei muito orgulhoso de fincar placas com o meu nome. Não garanto que não empregarei parentes e amigos, porque será difícil dizer-lhes não. Também não dou garantias de lealdade ao partido, e é bastante provável que darei atenção também aos adversários, talvez mais que os partidários, porque tratar com estes será fácil mas com aqueles será difícil...
...Quanto me assentar no gabinete, muitas vezes irei dizer que não estou, porque certos eleitores só irão me fazer pedidos, e deles só quero o voto. Não pensem que, uma vez no cargo, serei sempre atencioso com vocês da forma que estou sendo aqui no palanque. Na verdade, fazer campanha é cansativo e custa dinheiro, e estarei mentindo se disser que não buscarei recuperá-lo de alguma forma. Afinal, imagino que se eu for um bom governante, terei esse direito. Hoje eu não penso que deva me apossar diretamente de dinheiro público, mas poderei favorecer terceiros em algum projeto que julgar benéfico para a comunidade, e direi a eles que ainda tenho que cobrir custos de campanha, e eles entenderão. São interesses recíprocos e não entendo isto como desonestidade, mas como negociação...
...Quero o voto de vocês, e se for eleito farei apenas o possível. Tenho algumas idéias e boas intenções, mas nenhum programa concreto de governo. A carne é fraca e não tenho segurança quanto à minha honestidade, pois, como lhes disse, ela ainda não foi posta à prova. Só saberei quando estiver governando, mas com tanto dinheiro passando pelas minhas mãos, e tantas propostas, quem garante que não serei tentado?...
...Vocês me perguntam onde arranjarei dinheiro para obras se os cofres públicos estão vazios, e eu lhes digo que não sei. Se afirmo que cortarei gastos supérfluos, posso estar mentindo, pois sei que ao fazer isto atingirei contrários, e é preciso saber lidar com os contrários ou encontrarei dificuldades para governar...
...Se digo que vou melhorar a arrecadação, quero dizer que não penso em diminuir impostos, mas sim que poderei aumentá-los. Também não afirmo que destinarei todas as verbas para os fins a que se destinam e sem desvios, porque no dia-a-dia da administração sei que será preciso tapar buracos, aqui e ali...
...Não lhes garanto que governarei com mão de ferro, porque sei que não terei sozinho o controle do poder e nem do dinheiro. Estou consciente de que terei que ceder a vontades partidárias, negociar com meus aliados do Parlamento, e sobretudo com os adversários, fazer barganhas e concessões, porque nas relações de poder preponderam forças ocultas, e elas são muito corrosivas, e se eu me postar irredutível não verei meus projetos aprovados. Poderei me sustentar por algum tempo, mas aí começará a cobrança popular e então terei que ceder no que for oculto para sustentar a imagem pública de realizador, e queira Deus que não nos descubram, que aí será o escândalo!...
...Tudo isto é um jogo e eu estou entrando neste jogo, consciente de que nunca irei atender a todas as expectativas de vocês, em verdade a maior parte. Muitas coisas boas eu irei fazer, por minha própria vontade, mas a maioria delas por pressão das parcerias com as quais, eu digo hoje, irei governar. Parcerias que serão grandes incômodos para mim, em verdade umas chatices, mas que terei que atendê-las, antes que corram para a imprensa...
...Não vou enganá-los dizendo que meu governo será transparente, pois sei que se fizer isto com a totalidade dos meus atos serei no mínimo um suicida político, e me cassarão no primeiro mês de mandato por confissão pública...
Porque governar deveria ser uma atividade civilizada, porém nem sempre é, e sim muito mais a arte de gerenciar discordâncias e engolir sapos, e estas artes e manhas resultam em artimanhas nada recomendáveis para serem conhecidas pelos maiores de 16 anos e menores de 90, essa faixa etária boa de voto mas muito inconveniente depois das eleições. Então, acreditem que só haverá transparência naquilo que já for naturalmente transparente, porque meus desmandos não ficarão documentados...
...Não garanto que serei um bom governante, porque não sei o que vem pela frente. Vou fazer o que der. Poderei até me revelar um estadista, ou não passar de um bundão. Eu sou assim, se vocês quiserem votar em mim. (Fim do discurso).
O candidato que declarar isto, este ao menos terá sido honesto.
E se nele eu votar, terei votado consciente, com a segurança de que votei num candidato sincero em suas palavras e que não me enganou quanto aos seus propósitos. E assim estarei mais seguro, sabendo de antemão com quem estou tratando, pois este terá sido autêntico e os demais são suspeitos...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





