Adversidade tucana
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de maio de 1997
Fernando José Dias da Silva 
Até na adversidade os tucanos são magníficos. O tiroteio com munição pesada está comendo solto. O governo nunca esteve tão em baixa. Os companheiros de estrada da tucanada andam fazendo peraltagens a mais não poder. O Serjão, como diz o Veríssimo, cumpriu mesmo a promessa e virou vexame, nu na sauna, ou fora dela. Mas não há problema. Mesmo com toda a plumagem atrapalhando os tucanos vão jogar tudo para o alto, vão dar tchau para as reformas e vão se dedicar a um programa social que será anunciado com fogos de artifício. Pelo menos é isso que as poderosas antenas de Brasília estão emitindo.
A idéia urdida pelos magos, pelos feiticeiros do Planalto, é deixar que a responsabilidade pelas reformas da Previdência, Administrativa e Tributária fiquem para o Congresso. O Executivo lava as mãos. FHC vai se dedicar a coisas mais importantes para o seu futuro. Primeiro, encerrar o processo de aprovação do projeto da reeleição. Segundo, tentar colar o seu nome a programas que dêem votos, porque o principal é conseguir mais um mandato.
E aí é que entra a imagem magnífica dos tucanos. Eles acham que tudo o que está acontecendo não tem importância. São coisas que vão assentando pela própria força da gravidade. E o futuro é radioso. Os vinte anos de poder nem por um momento foram descartados. E o novo mandato de FHC é passeio no parque. É bico, coisa de criancinha. Na apoteose mental do tucanato a vitória será tão esmagadora, tão inquestionável nas próximas eleições que a maioria não precisará ser mais negociada. O PSDB fará maioria absoluta no Parlamento e nos governos estaduais. Com isso a presidência da Câmara, a presidência do Senado, todas as lideranças, todas as Comissões Permanentes do Congresso serão dominadas pela raça tucana. Aí eles poderão fazer as reforma que quiseram, e como quiserem.
O PSDB não precisará mais se misturar com a gentinha que eles andam cultivando ultimamente. Eles estão bem à vontade. Até admitem que erraram que o governo se perdeu porque começou a andar em más companhias. Na avaliação de alguns tucanos que ostentam plumagem respeitosa, o governo começou a andar com quem não devia. E deu no que deu: baixa na popularidade, integrantes do primeiro escalão sendo questionados pelos seus procedimentos éticos, gente sem dormir e, principalmente, o pavor de enfrentar a próxima crise. Porque sempre existe a próxima crise que está a espreita. E é sempre maior do que a anterior.
A questão das amizades preocupa os pais desde a infância das crianças. Nesse aspecto o governo foi relapso, negligente. Para conseguir vencer no primeiro turno da eleição de 94 não deu bola para saber quem eram seus companheiros. Foi um erro grande, porque todos os que estão metidos nesses casos estranhos que surgiram por aí fazem parte da turma do governo. Não é gente da oposição.
Mas tudo bem, eles vão tirar de letra esses problemas. Só duas perguntinhas que ficam na cabeça. Até agora Fernando Henrique batia na tecla de que as reformas eram fundamentais para o processo de modernização do País. Agora não são mais? Mais outra perguntinha sem ofender: de onde vai sair o dinheiro para os programas sociais de FHC, se o próprio FHC diz que o governo não tem dinheiro?


