Curitiba P.L.M., 18 anos, quer ser dentista e recomeçar a vida longe do mundo onde viveu até agora para poder passar para seu filho, hoje com seis meses, ''as coisas boas da vida e não o que eu passei''. M.R., de 15 anos, sonha em ser advogada e acredita que se tivesse ouvido os conselhos de sua mãe não estaria internada em uma casa para jovens infratores. M.V., 18, também reconhece que fez ''tudo errado'' e pensa em estudar, ser médica e recomeçar a vida ao lado da mãe, no estado do Pará. D.B.S, de 17 anos, também não vê a hora de ''ter uma vida normal, trabalhar, estudar e viver''.
Assim como os sonhos são parecidos, as histórias de vida da maioria dos jovens que estão nas três unidades de internação do Instituto de Assistência Ação Social do Paraná (IASP) têm muito em comum e comprovam a teoria dos profissionais que apontam o histórico familiar como causa principal do desajuste de crianças e adolescentes. As unidades abrigam menores de 12 até 18 anos, que praticaram infrações mais graves. Muitos continuam nas unidades mesmo após ter completado 18 anos porque o ingresso aconteceu quando eram menores.
A garota M.R., de 15 anos, está internada na Comunidade Social Joana Miguel Richa, em Curitiba, desde 26 de julho, cumprindo pena por lesões corporais e ameaça de morte. O rosto é de criança, mas as marcas no corpo são a prova de uma vida sofrida. Sofrimento que começou aos quatro anos de idade, quando a mãe lhe deu uma facada na perna. Nas pernas e costas estão cicatrizes, que insistem em lembrar as surras ''de tirar sangue'' que levou. Filha de pai alcoólatra, M.R. acumula 15 processos na Vara da Infância e da Juventude. Sua revolta explodiu para valer na manhã do dia 26, quando chegou embriagada em casa às 3 horas, e a mãe insistia em acordá-la cedo para ajudar no trabalho caseiro. M.R. discutiu com a mãe e acabou descarregando em cima do irmão de dez anos, espancando-o.
Já M.V., 18 anos, está detida há sete meses. Dia 5 de abril, depois de beber e fumar crack junto com seu companheiro, como faziam todos os dias, eles discutiram e ela o matou com duas facadas. Sua história também é triste. O pai era alcoólatra, batia na mãe e acabou sendo morto pelo enteado, irmão mais velho de M.V., então com 17 anos. ''Agora minha mãe está feliz, casou de novo, está morando no Pará e é para lá que eu quero ir quando sair daqui.''
P.L.M., 18, está enquadrada por latrocínio. Ela e mais três rapazes assaltaram um casal que estava tendo relações sexuais dentro do carro. O rapaz foi espancado e morto a facadas e a moça, que estava grávida, só escapou viva porque ela teria insistido. ''Eu fui cúmplice, mas não fiz nada.'' Ao contrário das outras meninas, P.L.M. diz que teve uma ''família normal''. O pai dela, no entanto, está preso por homicídio.
D.B.S, 17 anos, detida por roubo triplamente qualificado, estava com um amigo e juntos renderam uma mulher de carro e andaram por mais de duas horas, fazendo torturas psicológicas com a vítima, passando por bancos, caixa eletrônico e supermercado. D.B.S. não conhece a mãe, que a abandonou na maternidade e foi criada pelos avós paternos. O pai, também alcoólatra, nunca tomou conta da menina e ela não tem o menor interesse em notícias sobre ele.
Apesar disso, ela garante que teve uma infância muito feliz com os avós, que conseguiram formar uma filha enfermeira e têm outro filho estudando Direito. ''O perigo às vezes fascina, e acabei indo de embalo'', conta, lembrando que durante todo o tempo tentou acalmar a vítima e até mesmo enganar seu companheiro no roubo para acabar com aquilo mais rápido. Mas ela faz questão de assumir sua responsabilidade ao ressaltar que ''a gente só faz o que quer''. Com esta mesma firmeza, garante que não volta ao crime. ''Meu pai (o avô) tem 78 anos e me corta o coração ver ele aqui para me visitar'', diz, enquanto tenta segurar as lágrimas.

mockup