Adolescentes se prostituem para comprar droga
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sábado, 05 de julho de 2003
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba - A adolescente E., de 14 anos, garante que nunca fez sexo com penetração e que só faz sexo oral. O estado de sa© úde da menina, que não aparenta mais do que 10 anos, no entanto, denuncia as péssimas condições em que faz esse tipo trabalho. Ela diz que cobra R$ 10 por programa, mas as maiores apostam que ela não recebe mais do que R$ 5 para satisfazer os homens que frequentam um dos pontos de prostituição infantil de Curitiba, a conhecida Rua do Cincão.
A boca cheia de feridas de E. denuncia não apenas a promiscuidade das relações, mas também o motivo que leva 70% das meninas e mulheres da Vila das Torres, no Bairro Botânico, em Curitiba, a se prostituirem: a dependência de drogas. ''Eu uso todo tipo de droga, mas mais crack'', conta L., 16 anos, que afirma ganhar R$ 30 por dia. O filho de L., de 2 anos, teve que ser encaminhado ao SOS Criança, serviço de atendimento da Prefeitura de Curitiba para crianças em situação de risco.
De acordo com a pedagoga Célia Braga Figueiredo Faysano, ex-coordenadora da regional Matriz pela Secretaria Municipal da Criança, esta situação é comum. Sob efeito da droga, a maioria não se protege na hora de fazer sexo. Como consequencia são infectadas por doenças ou ficam grávidas. A droga impede também que cuidem de seus filhos posteriormente.
Outro problema são os adultos. Muitas garotas são incentivadas pelos próprios pais a se prostituir para garantir algum dinheiro dentro de casa. É o caso de E., que tem três irmãs mais velhas na prostituição. Outros três irmãos menores estão em abrigos municipais. N., de 19 anos, mãe de três crianças, conta que mora na casa de ''uma mulher na favela que recolhe os meus filhos e eu dou dinheiro para ela sustentar o filho com droga''.
Célia conta que a Secretaria da Criança, através das regionais, faz um trabalho intenso para tentar tirar as meninas da rua ou, ao menos, garantir mais proteção. Quase diariamente agentes educacionais distribuem preservativos e conversam com as meninas na tentativa de encaminhá-las aos órgãos competentes, como clínicas de desintoxicação no caso de drogaditas; e unidades de saúde para fazerem testes de detecção de Aids ou tratamento de doenças sexualmente transmissíveis e tuberculose.
A tuberculose é doença recorrente. ''Elas vivem só com a droga. Não se alimentam, não têm cuidado nenhum com a higiene. Como resultado, ficam com tuberculose'', diz Célia. Ela ressalta que, antigamente, a rua era frequentada só por moradoras da Vila das Torres. De alguns meses para cá passou a aglutinar também meninas vindas de municípios da Região Metropolitana de Curitiba.
''Meu padastro me batia, tentou me estuprar e fugi de casa'', conta G., que afirma ter 20 anos e saiu de Pinhais, onde deixou o filho de 6 anos aos cuidados de sua mãe, e hoje já está morando na Vila das Torres. Ela garante que não usa drogas e só faz sexo com camisinha. Bonita, diz que tem freguesia própria e cobra R$ 20 por programa. ''Tem até um cliente, que vem de São Paulo e vem sempre de BMW''.
Para Célia, os maiores culpados pela prostituição infantil são os homens que procuram as menores para fazer sexo. ''Vem aqui muita gente de dinheiro, com carrões do ano, alguns com dois homens no mesmo carro. A maioria é de classe alta, casada, com problema familiar, porque senão não faria isso.''


