O que leva jovens a se tornarem criminosos? Qual o tipo de delito mais cometido? Durante dois anos, a socióloga e coordenadora do Observatório Social Londrinense de Estudos da Violência, Conflito e Segurança Pública (Obsocil) Francisca Vergínio Soares, entrevistou 109 internos do Centro de Socioeducação (Cense I) da cidade. Foi traçado um perfil desses adolescentes, com idade entre 12 e 19 anos, de ambos os sexos, com predominância de rapazes.

Com base nos dados coletados, poderiam ser tomadas as medidas de prevenção para evitar que mais jovens se envolvam em delitos. Nesta entrevista à FOLHA, Francisca sugere a educação integral como uma das soluções possíveis para diminuir esse índice, pois eles se manteriam ocupados enquanto as mães trabalham.

Qual é o perfil dos adolescentes detido?
A faixa etária mais complicada é de 14 a 17 anos: 77% desses adolescentes ouvidos eram brancos, 26% negros e 6% pardos. O lugar onde moram é precário, são bairros onde falta esgoto, asfalto. As companhias também se mostram como elemento influenciador: 28,26% dos jovens têm como principais amizades pessoas que usam drogas, mas não traficam, e 21,20% são amigos de pessoas empregadas no tráfico. Em termos de religião, 56,52% disseram não ter nenhuma religião, enquanto 32% são católicos, 15% evangélicos, e 4% não responderam.

Em quem esses jovens se espelham?
É preocupante a resposta dos jovens, porque 26,4% disseram que não têm herói, enquanto 24,22% disseram que a mãe é o seu herói e 9,8% disseram que têm apenas o pai como seu herói. Tem outros personagens que eles falam, dois citaram o traficante Beira Mar. Mas ainda dá para apostar na família. É preciso investir na família para tentar reforçar esse modelo de herói para ele.

Por que essa ''preferência'' da mãe em relação ao pai?
Pela ausência do pai. A mãe é a provedora. No caso dessa pesquisa, por exemplo, em que um percentual significativo mora apenas com a mãe, e que o pai abandonou a casa por causa de outra mulher, a mãe acaba sendo a coisa sagrada, porque assumiu toda a responsabilidade.

Qual a maior motivação para o crime?
Segundo a pesquisa, 60% dizem que entraram no crime porque querem dinheiro e porque querem consumir drogas.

Quando se fala nessa questão de dinheiro, podemos concluir que o motivo do crime nas variadas classes sociais é diferente?
Tem crescido o envolvimento dos adolescentes com o tráfico de drogas. Adolescentes de classe média, média alta, entram no crime movidos pelo tráfico. O jovem de classe alta não quer fazer isso só para se divertir, mas ele está no negócio e para manter isso precisa de dinheiro. Para manter o vício também.

São muitos os casos de reincidência?
É alto o índice de retorno desses indivíduos: 35,32% estavam internados pela primeira vez, mas, em compensação, os 64,68% restantes já estavam pela segunda, terceira, quarta vez. Tivemos até reincidência de 21 vez. Até que ponto essas instituições funcionam como institutos de recuperação, de reeducação, de reinserção na sociedade?

Os 45 dias são suficientes para fazer um trabalho de recuperação?
Essa é uma pergunta complicada porque não se responde sim nem não, por esse problema da violência ser extremamente complexo. Em princípio, eu penso que não, 45 dias é muito pouco para reformular esses valores do adolescente que matou, que tentou homicídio, que tem a cultura de andar armado. É complicado, principalmente considerando as atividades que se tem nesses locais. Sabemos que esses centros de ressocialização são depósitos que acumulam cada vez mais crianças e adolescentes e não têm uma política voltada para essa reinserção, para essa reintrodução de novos valores e hábitos.

Os projetos desenvolvidos por ONGs e por centros são uma boa alternativa para ocupar crianças e jovens?
A educação integral é fundamental, porque 46% das mães trabalham fora. E os seus filhos, estão onde? Vamos imaginar que as escolas ofereçam educação integral para essas crianças. Essa mãe vai trabalhar despreocupada. A educação integral iria prencher esses espaços da criança e teríamos tempo de produzir essa nova cultura que o centro de ressocialização não está conseguindo.

Esses jovens são recuperáveis?
Eles são recuperáveis, desde que toda a sociedade se comprometa. Isso não é uma utopia. Claro que há casos que são extremamente complicados e requerem uma junta mais profissional, como o caso do Champinha, por exemplo, onde realmente é complicado. Mas os nossos casos em Londrina, pelo que eu ouvi desses meninos, é possível sim.

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